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Suspeitos de atentado a seguradora israelita na Argentina julgados à revelia

Foto: Tomas Cuesta / AFP

Dez suspeitos, iranianos e libaneses, vão ser julgados à revelia na Argentina pelo atentado bombista contra a seguradora israelita AMIA em Buenos Aires, que causou 85 mortos e mais de três centenas de feridos, em julho de 1994.

A decisão foi tomada pelo juiz federal Daniel Rafecas, que salientou no seu argumentário, consultado pela AFP, o caráter "excecional" de um julgamento à revelia, procedimento que até há pouco não existia na Argentina.

Mas considerou que um processo destes "continua a ser um instrumento que permite, pelo menos, procurar descobrir a verdade, reconstituir o que se passou e, sobretudo, dar aos representantes das vítimas um local para se exprimirem publicamente".

O atentado nunca foi reivindicado nem esclarecido. Mas as autoridades argentinas suspeitam que foi encomendado pelo Irão e executado por milicianos do grupo xiita libanês Hezbollah.

O Irão negou sempre qualquer envolvimento no atentado.  

A Argentina foi por duas vezes nos anos 1990 palco de dois atentados anti-israelitas.

O primeiro foi em 1992 e visou a embaixada na capital, que causou 29 mortos e mais de 200 feridos.

O segundo ocorreu em 1994, com um carro armadilhado, e visou a Associação Mútua Israelo-Argentina (AMIA).

Em 2024, 30 anos depois dos factos, a justiça argentina estatuiu que os atentados tinham sido encomendados pelo Irão.

O procedimento de julgamento à revelia não existia no sistema judicial argentino até março último, quando o parlamento aprovou uma lei, apresentada pelo governo, que introduziu mudanças ao código penal.

A associação das famílias das vítimas não é favorável a um processo à revelia, por recear que sirva apenas para "confirmar uma hipótese oficial sem provas", como avançou o seu advogado, Rodrigo Borda.

No texto em que fundamenta a sua decisão, o juiz Rafecas considera estas reservas, mas contrapõe que "nada fazer seria ainda pior".

Como disse: "Não se trata de curar feridas por decreto, nem de impor reparações simbólicas. Trata-se de procurar mostrar o que foi feito, o que motivou uma investigação, o que não foi feito, o que falta, o que ainda pode ser examinado. E fazê-lo publicamente".

JN/Agências