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Espécies protegidas em risco por causa dos atropelamentos

Sinal de trânsito alerta para a possibilidade de se passar em zona com linces ibéricos Foto: Igor Martins/Arquivo

Desde 2015, 43 linces ibéricos foram atropelados nas estradas portuguesas. "Trata-se de um problema de conservação e de segurança rodoviária", diz professor universitário António Mira.

Todos os anos, milhares de animais domésticos e selvagens são atropelados nas estradas. Em seis anos, foram mais de 16 mil ocorrências, segundo a GNR. Os números das autoridades mostram que este tipo de sinistralidade rodoviária pode ter impacto em vidas humanas. Por outro lado, colocam em risco a conservação da fauna, revelam os investigadores académicos ouvidos pelo JN. O lince ibérico e o toirão (furão-bravo) são duas das espécies mais vulneráveis aos acidentes rodoviários. Várias concessionárias de autoestradas têm medidas para mitigar os atropelamentos, que vão desde o GPS aos passadiços.

Clara Grilo, investigadora do Cibio-Biopolis - Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, salienta ser importante conhecer qual o impacto da sinistralidade rodoviária nos animais, até porque, no caso do lince-ibérico, a “densidade populacional é baixa” e a “taxa de reprodução não é muito grande”. Entre 2015 e 2024, Portugal registou 39 mortes de linces-ibéricos por atropelamento, segundo o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Este ano, há pelo menos quatro mortes.

Alerta da app

Em 2014, o lince-ibérico estava classificado como “criticamente em perigo”. Nos anos seguintes, um esforço entre Portugal e Espanha permitiu que as crias nascidas em cativeiro, e depois libertadas para o seu habitat natural, alavancassem a espécie para “vulnerável”, no ano passado. A Infraestruturas de Portugal (IP) indica ter adotado “soluções mitigadoras do risco de atropelamento do lince-ibérico”, como a colocação de sinais de trânsito e bandas cromáticas redutoras da velocidade. Foram ainda instalados passadiços secos, para que os animais atravessassem com segurança. A IP garante que estão a ser usados pelos linces-ibéricos. Há também vedações nos potenciais locais de atravessamento.

O ICNF aponta ao JN que foi testado um sistema, em articulação com a IP, para detetar a proximidade de linces- ibéricos junto às estradas portuguesas. Através da aplicação de navegação Waze, os condutores recebem um alerta quando um animal estiver próximo do veículo. Esse aviso é possível porque alguns linces-ibéricos têm coleiras com emissores LoRa (radiofrequência de longo alcance).

Toirão a regredir

“Muitos animais [linces-ibéricos] foram reintroduzidos e desde a reintrodução há um número significativo de atropelamentos”, confirma António Mira. O professor da Universidade de Évora afirma que também o toirão, conhecido por furão-bravo, “tem regredido muito nos últimos anos em Portugal”. “Há mais de 20 anos era uma espécie que eu encontrava atropelada com frequência. De repente, começou a desaparecer de muitas zonas do país. Eu não tenho provas que possam ter sido os atropelamentos, mas suspeito que sejam a causa para a regressão”, diz o investigador do Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento.

A PSP contabilizou, desde 2019 e até 2024, 1718 acidentes que envolveram animais. A GNR aponta que, em seis anos, morreram duas pessoas e 19 ficaram com ferimentos graves por causa destes sinistros. A investigadora Clara Grilo salienta que os atropelamentos de animais podem “custar vidas humanas”. O docente universitário António Mira diz ser importante sensibilizar os condutores para moderar a velocidade ao volante. “Ninguém gosta de ver animais mortos na estrada. Para além da conservação das espécies, desde a mais pequena à maior, é um problema de segurança rodoviária”, refere.

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Rita Neves Costa