Cultura

Regeneração cerebral e música nova em 2024

Sofia Kourtesis, nova sensação house, sexy e sedosa, do Peru Direitos reservados

Descobrir Bruiser Wolf, Sofia Kourtesis, Ragana e voltar outra vez (voltar sempre) a Stravinski

É tudo tão doce que aturde e pasma como uma canção incompatível de embalar. “Dope boy”, novo single de Bruiser Wolf, rapper de Detroit, 41 anos, fala de droga e tráfico na infância — “o meu primeiro brinquedo, não tive escolha, foi uma balança de precisão”, canta ele a injectar frugalidade na inclemência do mundo —, mas a sua voz, sincronicamente caricatural como um cartoon e meiga como o mais meloso interlúdio da soul, é tão peculiar no tom e dicção, tem um tal exagero emocional que se agarra como uma lapa sorridente às cavidades do coração. 

Residente recente do hipocampo, mas peça crucial para a navegação feliz dos sistemas límbicos saudáveis, Sofia Kourtesis, 38 anos, sensação house do Peru, sediada em Berlim, tem um single que vicia: “Si te portas bonito”. É um mergulho imediato na melhor sacarina do Top 40, ou nas supremas Baleares: batida house sedosa, sexy, suavíssimos sintetizadores e a voz a revolutear pelo cúmulo do desejo acima: “Vas a querer hablarme / Vas a querer escucharme / Vas a querer tocarme / Vas a querer comerme”.

É tudo pelo jorro da dopamina, é essa a importância de ouvirmos música nova: é um banho de motivação molecular, ativa hemisférios inteiros no cérebro, regula, regenera, dá-nos novos neurónios. Assim: eis “Desolation’s flower”, fascinante novo álbum da dupla feminina de black metal Ragana. Ouça-se o single de sete minutos “Winter’s light part 2”: lamacento e fervente, cheio de solidão, de consolo e de peso, é enorme a sua recompensa catártica.

E pode a música nova ter 111 anos? É a palindrómica idade da “Sagração da primavera”, revolução orquestral com que Igor Stravinsky detonou os cérebros, como se os pipocasse, de Coco Chanel, Marcel Duchamp, Gertrude Stein, Giacamo Puccini e de todo o público parisiense presente na estreia de 1913. A sua sedição é eterna. Ouçam-se os primeiros sete segundos de “Augurs of spring”: inventou-se ali o heavy metal! Estão lá, e para sempre, as melhores dissonâncias, as melhores politonalidades e polirrítmos possíveis, as assimetrias supremas, o melhor futuro que alguém já foi capaz de imaginar. 

“Dope boy”, Bruiser Wolf

“Si te portas bonito”, Sofia Kourtesis

“Winter’s light part 2”, Ragana

“Augurs of spring”, Igor Stravinsky

José Miguel Gaspar