Praça da Liberdade

O veto inútil por causa do voto útil

Depois do veto político do presidente ao Mais Habitação, a pergunta que fica é: para que serve o veto político numa legislatura com maioria absoluta.

Como o próprio prof. Marcelo reconheceu explicitamente, vetar politicamente uma lei da Assembleia da República, num quadro em que o partido que a aprovou tem a maioria absoluta dos deputados, serve de pouco. Mais uma vez, como explicou o presidente, numa questão de semanas, o diploma pode ser-lhe reenviado tal e qual, e dessa vez com a promulgação obrigatória garantida. Que é o que já se sabe que vai acontecer. Fica a discussão estéril de saber se nessas semanas se ganhou ou se perdeu tempo...…

Como já vi escrito e muito bem, não é obrigatório que presidente da República e Governo tenham de estar sempre de acordo com as políticas que são definidas e transformadas em diplomas legais. Estamos a falar de dois órgãos diferentes, com legitimidades diversas e sobretudo com competências e atribuições distintas, que a nossa Constituição também define especificamente sem qualquer margem para dúvidas. Não é a primeira vez que presidente e PS estão de costas voltadas, nem será certamente a última. Como igualmente não será por causa desta discordância que essas costas voltadas terão mais consequências. Como Marcelo já disse, na praia ou na Polónia, “a vida continua”.

Quando é possível que remem ambos para o mesmo lado concordando com o rumo a seguir, muitas das vezes ainda bem, ganhamos todos com isso; mas quando existem divergências inconciliáveis, paciência. É a vida e a Constituição primeiro, e depois os eleitores, a seu tempo, logo nos ajudarão a ver a oportunidade, a justeza e a popularidade dos caminhos escolhidos.

A pergunta que fica no ar é saber para que é que serve este veto. Não tendo o presidente esperança que o Governo (leia-se a maioria absoluta da AR) vá mudar de ideias, a vontade de ficar registada a opinião contrária do presidente não precisava desta formalidade. Como já aconteceu em vários outros casos, qual é a diferença entre este veto político e uma promulgação acompanhada de abundante argumentação crítica à lei promulgada?

Por causa de uma maioria absoluta que muitos atribuíram ao efeito do voto útil, temos agora esta situação caricata de um veto inútil sem praticamente efeito nenhum.

Manuel Serrão