Cultura

Olhar para um outro mundo

Acontecimentos durante a fuga marcaram a vida da mãe da autora Direitos reservados

Relato biográfico de uma fugitiva da Coreia do Norte é narrado no livro "A Espera", agora publicado pela Iguana.

Em “A Espera” edição recente da Iguana, a coreana Keum Suk Gendry-Kim conta a vida da mãe antes, durante e depois da separação das duas Coreias, após a II Guerra Mundial e a divisão do mundo em dois blocos.

Obviamente, porque parte da narrativa decorre no tempo presente, há em “A Espera” também uma componente autobiográfica, numa exposição contida e de alguma forma catártica da autora, que se utiliza para realçar o momento actual da mãe e a sua relação nem sempre fácil com ela, como reflexo de tudo o que sofreu no momento da divisão da península coreana.

É um relato com diversos saltos temporais, com o presente e o passado a alternarem perante os olhos do leitor, que possui um enquadramento cultural e sociológico para que a narrativa seja mais compreensível e para explicar determinadas opções. Em “A Espera”, vamos acompanhar a mãe da autora quando empreendeu uma longa caminhada, com parcos apoios e sem condições, com o objectivo de abandonar o Norte e fugir para o supostamente paradisíaco Sul, levando consigo praticamente apenas a roupa do corpo e uma bebé às costas, em companhia do marido e do filho mais velho. E de milhares de outros coreanos, num êxodo massivo e desesperado. Mortificada, muitas vezes descrente, num acaso de um percurso atribulado, mais exactamente num gesto tão amoroso e maternal como parar para dar de mamar ao bebé, a mãe de Gendry-Kim acabou por se ver separada do companheiro e do filho, a quem nunca mais voltou a ver.

Entre a espera por eles - que se eternizará no tempo - a necessidade de por fim retomar a marcha na expectativa de que estivessem mais à frente e a chegada ao destino, angustiante e pesarosa pela separação, compreendemos como aquele acontecimento marcou aquela mulher que, desde então - ao longo de mais de meio século - viveu sob o fardo de um sentimento de culpa que se reflectiu em tudo o que a vida lhe deu.

Essa é uma das notas mais fortes e distintivas deste romance desenhado com pinceladas de preto e branco, largas e expressivas, manchas e sombras em que Gendry-Kim, com um

pudismo assinalável, propõe um relato emotivo em que somos convidados a olhar para pessoas como nós num mundo que, ilusoriamente, tem pouco a ver com o nosso.

A Espera

Keum Suk Gendry-Kim

Iguana

248 p., 20,95 € 

F. Cleto e Pina