Cultura

Uma pequena viagem ao universo absurdo e fascinante de Dupieux

“Yannick” é uma prova da vitalidade, e permanente renovação, do cinema francês. FOTO: DR

“Yannick” é a nova comédia do singular autor francês de 49 anos Quentin Dupieux. O filme chega esta quinta-feira aos cinemas.

Provocador, bizarro, original, prolífero, irreverente. A lista de adjetivos para qualificar o que já se pode considerar o corpo da obra do realizador francês Quentin Dupieux poderia continuar quase infinitamente – e não a conseguiríamos,  ainda assim, classificar de forma totalmente justa.

Há de tudo e mais alguma coisa nos filmes absurdos e fascinantes de Dupieux: um pneu automóvel transformado em assassino em série – sim, leu bem -; um casal que tem uma casa onde um alçapão é uma máquina do tempo;  uma série de diferentes encarnações de Salvador Dali, sempre a fugir da entrevista de uma jovem tão excitada quanto inquieta;  um homem fascinado até ao delírio por aqueles casacos de camurça com franjinhas... 

Como o autor francês, prestes a fazer 50 anos, tem uma capacidade de trabalho mais elevada do que a reação dos exibidores portugueses, muitos dos seus filmes não chegam ao circuito das salas – logo, esta é uma boa oportunidade para entrar no universo de Dupieux. E “Yannick” vai surpreender, literalmente, até à sequência final todos os espectadores.

Estamos num teatro de Paris, onde três atores se esforçam por distrair a sala cheia com a peça “O Cornudo”. A qualidade do espetáculo está no entanto ao nível da subtileza do titulo, e a meio da representação um jovem chamado Yannick decide, do meio da plateia, dizer basta! É que está no seu dia de folga, teve de viajar dos subúrbios e esperava ir divertir-se mas, em vez disso, tem de assistir a um espetáculo patético.

O que vai ver depois, no modelo minimalista de Dupieux, é como Yannick se torna no verdadeiro encenador da peça e no protagonista de um filme onde a crítica social e a denúncia política estão bem presentes – e bem afiadas.

Raphaël Quenard estava nomeado ao César de melhor ator e acabou por ganhar o prémio de melhor esperança noutro filme. O que faz prova da vitalidade e permanente renovação do cinema francês – e que já não prescinde do olhar único deste cineasta.

O filme é para ver até ao fim e não será preciso levantar-se, como Yannick, a meio da projeção para protestar. 

João Antunes