Praça da Liberdade

Chamada à arte

“Este é precisamente o momento em que os artistas vão trabalhar. Não há tempo para desespero, nem lugar para autocomiseração, nem necessidade de silêncio, nem espaço para o medo. Nós falamos, nós escrevemos, nós fazemos linguagem. É assim que as civilizações se curam.” (Tradução do autor)
Toni Morrison, in “The Nation”

Volta e meia respondo a estas palavras. Seguro a coragem com ambas as mãos. Para ir trabalhar. Encontro na atualidade essa chamada ao trabalho.

Precisamos de pôr os artistas a trabalhar! A percorrer os contornos do que existe. A sair do centro, de qualquer centro, do ego, da cidade, da humanidade. E vê-los a funambular entre células, seres, comunidades ou outros sistemas vivos. A contaminar. E a ir do nano até ao espaço sem passar na casa da partida, a vacilar nos limites humanos do cosmos, e das perguntas que nem sabemos formular. A oscilar no bordo da legalidade, a transgredir. A transcender. A saltar pelos planaltos da finança, noutros lugares. Em paraísos. A bater código inútil em tecnologia computacional digital, molecular ou quântica. Em pijama. A camuflar-se entre as ordens e a obediência. Em conflito.

É a hora de cada um trabalhar: reformados, formados, a caminho, ou nem por isso. Falhar melhor. Sair do centro e assentar. Ir ao recorte, baloiçar-se na beira e inclinar o plano. Ir sem plano. Espreitar o que existe de lá dos limites que assentámos e assentimos. Expor-se à radiação cósmica, ao vício, ao mais que humano, à infeção, ao fora da lei, ao artificial (inteligente ou não). Porque a arte se quer em risco. A apagar o risco que se traça entre clivagens forçadas. Em risco de cair. A desatar nós que seguram, a tecer fios improváveis. A picar. Esta é a hora da arte ir, sozinha ou acompanhada. De ir desanestesiar do “anaestético”, para que se volte a sentir. De se desdobrar em expressões que afetam. Retomar a vista: uma experiência estética de cada vez.

A arte é essencial a estes tempos, os artistas têm de estar em trabalho, ser carne viva. A pôr sal nas feridas, a sarar o medo. Alguns já lá estão. Caminham confiantes de mão no bolso na borda do abismo, sentam-se no arame e acenam com o chapéu. Têm experiência do desequilíbrio. Hábito de quebrar o hábito, de criar fora do centro.

Então podemos dormir descansados? No dia em que os artistas nos deixarem descansar, estamos todos mortos.

Cristina Sá