Esqueça os castigos e as horas intermináveis de explicações. Nenhuma destas soluções vai resolver o problema das crianças que dizem não valer a pena estudar porque não serão capazes de atingir os objetivos escolares, revelam duas psicólogas, que apresentam alternativas para reduzir o efeito de "desistência" e desmotivação dos mais novos.
João tem 13 anos, está no oitavo ano e trouxe para casa, nestas férias pós-primeiro período, apenas uma positiva e a insistência em frases como "sou um burro", "os outros conseguem e eu não", "fartei-me de estudar e tenho negas". Considerações que antecedem - e que mães e pais antecipam - outra realidade, a de que "não valerá a pena estudar", prevalecendo o desalento.
Este aluno de nome fictício está a ser acompanhado por uma psicóloga, os pais admitem que o "nível de stress que talvez tenha faz com que chegue aos testes e possivelmente não consiga", já segue em explicações - com resultados entre a primeira vaga e a segunda -, mas com receio do que aí vem a partir de janeiro. "Ele está no centro de estudos todos os dias uma hora ou duas e com reforço de explicaões à segunda, à quarta e sábado, conseguimos passar do insuficiente para o suficiente", revela o progenitor. Entre a sensação de culpa dos pais que acham que deveriam ter começado mais cedo no apoio, passando pela frustração do aluno e dos resultados escolares, como reverter esta situação?
A psicóloga clínica Isabel Henriques chama à atenção para o facto de, "no início do ano letivo, muitos jovens verem as suas notas caírem, algo que preocupa pais, professores e os próprios alunos". Uma quebra, justifica a especialista, que "nem sempre reflete falta de esforço ou dificuldades com os conteúdos, ou seja, em muitos casos, o verdadeiro desafio está na motivação e na confiança que o aluno tem em si próprio", considera a terapeuta.
A psicóloga Carolina Freitas Nunes concorda: "Quando uma criança ou um adolescente parece "desistir" de ter bons resultados escolares, raramente estamos perante falta de interesse ou preguiça." "Na maioria das vezes, estamos perante um desgaste emocional acumulado, em que o jovem deixa de acreditar que é capaz, e a quebra de notas é muitas vezes o sinal visível de um processo interno mais profundo: frustração repetida, perda de confiança e sentimento de incompetência", alerta a especialista. Ambas lembram que castigos arriscam não produzir resultados e explicações em excesso podem não trazer melhores notas.
Isabel Henriques invoca um "fenómeno complexo" que "reflete fatores emocionais, cognitivos e experiências acumuladas", sendo essencial "compreender a sua origem e intervir precocemente para restaurar confiança e interesse pelo estudo". A especialista pede "apoio emocional e presença parental constante". "Estratégias centradas no reconhecimento de esforços, definição de metas graduais, orientação prática e reforço positivo permitem que crianças e adolescentes recuperem a motivação de forma duradoura", analisa a psicóloga clínica. Carolina Freitas Nunes considera que "nestes contextos, aumentar explicações ou pressão pode não só não ajudar, como reforçar a sensação de falhanço".
Se é um dos casos, veja o que aconselham cada uma das especialistas que deixam sinais, estratégias e caminhos por escrito à Delas.pt.
Como lidar com crianças e jovens que parecem desistir?
Carolina Freitas Nunes [C.F.N.]: O primeiro passo é escutar verdadeiramente, sem julgamento, sem correções imediatas e sem minimizar o que a criança ou o jovem sente. Muitos já ouviram inúmeras vezes o que devem fazer; o que lhes falta é sentirem-se compreendidos. Validar o cansaço, a frustração e a sensação de incapacidade não significa concordar com a desistência, mas reconhecer o ponto em que a criança está. Só quando se sente compreendida é que volta a estar disponível para tentar novamente.
Isabel Henriques [I.H.]: O problema raramente é preguiça. Frequentemente, trata-se de uma reação emocional a fracassos repetidos, que mina a confiança e reduz a motivação. É essencial ouvir e validar sentimentos, mostrando empatia. O acompanhamento psicológico ajuda a fortalecer a autoconfiança e a ensinar estratégias de enfrentamento da frustração e ansiedade. Valorizar pequenas vitórias ajuda o aluno a perceber que o esforço faz diferença.
Como os motivar de novo? Quais as melhores estratégias?
I. H.: Para recuperar a motivação sugiro reconhecer esforços e progressos pequenos, definir metas graduais e concretas, relacionar o estudo com interesses pessoais, apoiar na gestão emocional como a ansiedade, medo de errar, frustração e usar linguagem encorajadora ("cada passo conta", "vamos tentar juntos"). Estas estratégias atuam diretamente sobre pensamentos e emoções que bloqueiam a motivação, criando condições para que o estudo seja eficaz e gratificante.
C.F.N.: A motivação não nasce da pressão, nasce da experiência de competência. É essencial ajudar a criança ou o adolescente a voltar a sentir que consegue. Isso faz-se através de metas pequenas, concretas e alcançáveis, valorização do esforço e do processo, e não apenas da nota, separação clara entre valor pessoal e desempenho escolar, e reforço das áreas onde a criança se sente competente. O adulto deve transmitir de forma consistente que aprender pode ser difícil, mas isso não define quem a criança é nem aquilo de que é capaz.
Qual o papel dos castigos ou da retirada de privilégios?
I. H.: Castigos e restrições podem gerar conformidade momentânea, mas não promovem motivação real e aumentam sentimentos de incapacidade e ansiedade. O reforço positivo, aliado a acompanhamento psicológico, é mais eficaz para restaurar interesse, confiança e engajamento.
C.F.N.: Tendem a ser pouco eficazes. Nestes casos, o problema não é falta de vontade, mas excesso de frustração e desânimo. A punição pode aumentar ansiedade, resistência e afastamento emocional da escola. Em vez disso, é mais útil ajustar expectativas, estruturar rotinas com apoio e reforçar qualquer sinal de envolvimento, mesmo que pequeno.
Como evitar que cheguem a esta fase de desistência? Por que ela acontece?
C.F.N.: A desistência acontece quando a criança acumula experiências de insucesso sem sentir apoio emocional suficiente. Com o tempo, interioriza a ideia de que não é capaz ou de que não vale a pena tentar. Evita-se quando o erro é tratado como parte do processo de aprendizagem, quando o esforço é reconhecido, quando há espaço para falar sobre emoções ligadas à escola e quando a criança sente que é valorizada independentemente dos resultados.
I. H.: A desistência surge quando o aluno sente que seus esforços não produzem resultados, devido a fracassos repetidos, comparações negativas ou expectativas irreais. Psicologicamente, instala-se o chamado desamparo aprendido. Para prevenir sugere-se intervenção psicológica precoce, celebração de pequenas conquistas, criação de ambiente familiar e escolar positivo, com reforço construtivo e estratégias pedagógicas adaptadas às necessidades individuais.
Quais as crianças e jovens em maior risco e porquê?
C.F.N.: Estão particularmente vulneráveis crianças com dificuldades de aprendizagem não identificadas, jovens com baixa autoestima ou ansiedade, crianças muito comparadas com irmãos ou colegas, alunos sujeitos a elevada pressão para o desempenho e jovens emocionalmente mais sensíveis ou perfeccionistas. Nestes casos, a quebra escolar é frequentemente um sintoma e não o problema principal.
Quais os primeiros sinais e como agir desde logo?
I. H.: Entre os sinais iniciais estão o facto de evitar ou adiar tarefas escolares, dificuldade de concentração, invenção de sintomas de doença - que indicam que a criança ou adolescente está a sentir-se sobrecarregado, ansioso ou incapaz de enfrentar as exigências escolares -, frustração ou ansiedade exagerada frente a desafios, isolamento social, queixas frequentes de incapacidade.
C.F.N.: Alguns sinais precoces incluem desvalorização constante da escola, aumento de ansiedade, irritabilidade ou apatia, quedas graduais de rendimento e frases como "não sou bom nisto" ou "nunca vou conseguir". A intervenção deve ser precoce, com escuta, validação emocional, ajustamento de exigências e, sempre que necessário, avaliação psicológica ou neuropsicológica.
I.H.: A ação imediata deve envolver diálogo empático, definição de metas pequenas, reforço positivo e acompanhamento psicológico, trabalhando competências emocionais e académicas de forma integrada. A intervenção precoce é a forma mais eficaz de impedir que o desinteresse se torne crónico.
Em que medida a escola e os professores podem ajudar?
C.F.N.: A escola tem um papel central ao criar relações de confiança com os alunos, adaptar estratégias pedagógicas quando necessário, valorizar o progresso individual e trabalhar em articulação com as famílias. Um professor que acredita no aluno pode ser decisivo para a recuperação da sua motivação.
I. H.: Professores e escola têm papel complementar ao psicológico ao identificar sinais de desmotivação, ajustar estratégias pedagógicas, oferecer feedback construtivo e colaborar com psicólogos e famílias. Desta forma, criam um ambiente seguro para aprender, errar e persistir, fortalecendo confiança e motivação.
E os amigos das crianças e jovens?
I. H.: Colegas podem ter impacto positivo oferecendo incentivo e companhia, reduzindo isolamento e sensação de diferença e servindo como modelos de persistência e engajamento. O acompanhamento de adultos garante que o apoio entre pares seja construtivo e seguro, evitando reforço de inseguranças.
C.F.N.: Os pares têm um impacto significativo, sobretudo na adolescência. Amigos que normalizam dificuldades, evitam a ridicularização e incentivam o esforço podem funcionar como fatores protetores importantes. Sentir que não se está sozinho faz diferença.