Miséria e infelicidade no sertão nordestino, numa proposta de descoberta da BD brasileira: "Como pedra", novo álbum de Lucas Iohanathan.
Apesar da aclamada proximidade e afinidade culturais, a banda desenhada brasileira continua a ser quase desconhecida entre nós. A "Turma da Mônica", há décadas distribuída em Portugal nas edições originais, é a exceção que, honrosamente, a editora Polvo tenta contrariar através da sua coleção Romance Gráfico Brasileiro. O título mais recente, o 35.° do rol, é "Como pedra", de Lucas Iohanathan, distinguido em 2023 com o prestigiado Jabuti, prémio da Câmara Brasileira do Livro, criado em 1959.
A sua história está ambientada no nordeste do Brasil, no Sertão profundamente afetado pela miséria e pela pobreza, agravadas por uma seca contínua cuja contabilidade vai avançando inexoravelmente ao longo deste romance gráfico, ultrapassando rapidamente um ano e mais, e centra-se num casal, Cristo e a mulher, e na sua filha, Rosa, presa desde sempre a uma cadeira de rodas, por uma doença que a priva de se mover e falar, quase como um vegetal, sem qualquer reação.
Um peso mais, numa vida já de si plena de agruras, cuja essência, a ignorância, o medo e a necessidade de explicações, a par da inexistência das posses necessárias para recorrer a ajuda médica, levam a procurar respostas no inexplicável, inevitavelmente na religião. Na religião, na relação com Deus ou na forma como cada um a encara, na fé ou na sua aparente falta, uns buscando na sua condição de pecadores a razão para a tragédia que representam diariamente num palco vazio e sem espectadores, outros apontando facilmente o dedo para justificarem sacrifícios e obrigações que nunca lhes cabem a eles.
Entre o amor de uma mãe, disposta a tudo, balançando entre a vã esperança de um dia arrancar um sorriso à filha ou o desespero mais profundo que leva a entregar tudo nas mãos da crendice, do fanatismo e da facilidade da acusação alheia, Lucas Iohanathan constrói uma narrativa dura, assente em tons laranja que acentuam a aridez dos cenários em que ela decorre, e num relato muitas vezes mudo, cuja ausência de palavras apenas acentua a sua violência intrínseca.
O final, aparentemente feliz, não passa na verdade do reforçar do tom trágico que perpassa por todas as páginas de "Como pedra", e faz pensar que nunca temos mal que chegue.
"Como pedra"
Lucas Iohanathan
Editora Polvo
200 páginas, 22,90 €