As filas continuam vivas em todos os natais da Petúlia. Despedimo-nos dos avós, e depois dos pais, antes de sermos nós os que passam o testemunho a filhos, netos e até aos que, tendo o nosso sangue, não iremos conhecer. É o ciclo da vida, o triste e maravilhoso Tempo a cumprir o seu único e precioso propósito. Também por isso é importante que existam lugares capazes de jogar às escondidas ou à cabra-cega com o Tempo. A Petúlia é mais do que uma confeitaria, mais do que o bolo-rei no Natal ou dos malditos jesuítas que nos rebentam as defesas que inventamos para tentar não engordar, mais do que o projeto de Ilídio Pinto e da sua Maria Amélia que, no princípio da década em que eu nasci, abriram a casa com o objetivo de a tornar única, familiar e eterna. A Petúlia é mais até do que o lugar onde Jorge Nuno conspirou com Ilídio e Reinaldo, o sítio onde um deles teve a ideia de que o dragão é que era o bicho perfeito para incendiar leões e águias. Não, que me perdoem os portistas... a maior revolução da Petúlia foi a de ter ousado provocar o Tempo. Foi o poder de o travar quando lá entramos, o poder de nos fazer recordar dos que já não estão quando encomendamos um bolo-rei com massa fofa e pinhões e nozes que nos sabem como antes, como quando éramos crianças ou miúdos feitos de energia. Vi as fotografias neste 24 de dezembro. Malta ao frio nos quarteirões da Júlio Dinis, malta sorridente com miúdos na mão, sortudos que sabem que levam para casa muito mais do que um bolo-rei.