Assiste-se cada vez mais a uma intolerância social ao silêncio, à estagnação, à reflexão de se compreender quem realmente se é. Entregamo-nos à filosofia de "apenas sermos aquilo que pensamos que o outro pensa que somos", sem refletirmos quem realmente pensamos que somos! Validamo-nos pelas métricas do outro, apropriando-nos delas como se fossem nossas, e passamos a assumir o reconhecimento como realização. Propaga-se, simultaneamente, uma cultura que confunde silêncio com ameaça, onde a ausência de estímulo deixou de ser descanso para se tornar suspeita.
Neste novo contexto de se ser e pensar, é visível o papel acrescido do empreendedorismo. Porto seguro no tema da produtividade: É difícil não ressoar a sucesso (experiência inerente à produtividade), quando te rotulas como empreendedor(a). Facilitador da emancipação individual: há esta tendência por independência e liberdade. Fórmula prescritiva para a autoconfiança: poucas situações fortalecem tanto o ego como a perceção da nossa capacidade de criar (não surpreende, por isso, que, para muitas pessoas, trocar ter filhos por ter negócios deixe de parecer descabido). E é também neste espaço que, por vezes, nos encaixamos melhor, vivendo na glória de uma conquista que nem queremos, mas que o outro acredita ser vitoriosa. De facto, é no meio desta entrega à validação externa que acabamos a querer um destino cuja jornada não apreciamos.
Se, por um lado, estas são as novas regalias percebidas de se ser empreendedor(a), por outro, há todo um conjunto de fatores que tornam este contexto ainda mais sedutor. A perceção tripartida do tempo, marcada pela consciência de um futuro que nos pressiona a planear e pelo vazio que o desconhecido carrega. A exposição e divulgação constante que nos afunda em comparações. E a facilidade desproporcionada da inteligência artificial que amplia o custo de oportunidade de não a usar.
Assiste-se, assim, a um empreendedorismo que acalma mais ansiedades do que resolve necessidades, ocupando o silêncio para evitar a reflexão e transformando a inquietação em projetos socialmente aplaudidos. Mas não deveria o negócio ser, antes de tudo, uma resposta a problemas reais? Talvez esteja na hora de nos medirmos pela nossa própria régua e de empreender, não como refúgio, mas como resposta, permitindo-nos, finalmente, apenas ser o que pensamos ser.