Até quando é suposto desejarmos bom ano? Há alguma data-limite? É que depois de semanas a dizer "boas festas", tivemos os dias em que ouvimos dizer apenas "continuação" como abreviatura de "continuação de boas festas", para depois passarmos às "boas entradas" e agora, finalmente, ao "bom ano". É uma canseira de votos e desejos que se agrava pela quantidade de interações sociais que a quadra proporciona. É muito jantar, encontro, festa e evento, com muita gente a quem é suposto desejarmos boas festas, continuação, boas entradas e, agora, bom ano!
Mal chegámos aos Reis e o depósito de bons augúrios está nas lonas. Além de que gastar tantos votos de boas festividades em época de campanha eleitoral ainda acentua mais o famoso "cansaço eleitoral" acumulado e a falta de vontade de votar (pelo pouco entusiasmo com os candidatos disponíveis) que sinto em quase toda a gente à minha volta. Ainda assim, mais do que esta campanha chocha, arrelia-me a expressão "continuação". Primeiro porque sozinha fica ridiculamente desamparada, depois porque se dita na totalidade - "continuação de boas festas" - é extenuante de tão grande e pressupõe (sem comprovação nenhuma) que as festas estão a ser boas, mas também porque a ideia de "continuidade", quando já estamos tão embrenhados nos infinitos eventos da quadra, acrescenta ainda mais peso e longevidade àquele comboio imparável e exagerado de refeições e convívios. Para quê desejar "continuação" se a maioria quer que aquela orgia dionisíaca de açúcar e canela acabe rapidamente?
Atenção, que compreendo e valorizo a intenção de abreviar a expressão, sendo apologista de abreviarmos mais amiúde estes "proformas" e expressões protocolares. Só acho que essas abreviações têm de ser bem pensadas e não tenho visto em Portugal o talento necessário para fazê-las com qualidade. Por exemplo, as pessoas que dizem só "boas", como forma de encurtar o "boas tardes", ou só "dia", para não ter de dizer "bom", ensaiam essa abreviação sem grande cuidado. Já os nossos irmãos espanhóis fazem melhor este tipo de coisa, dizendo "finde" para a enorme expressão "fim de semana" e "porfa" para dizer "por favor", em duas abreviações úteis, ganhadoras e altamente disseminadas popularmente.
Já o meu filho, sendo português, mostrou no auge dos seus cinco anos ter o talento castelhano para abreviar, sendo o inventor do "pequenal", ou seja, da (ainda desconhecida) abreviatura de "pequeno-almoço", expressão essa que realmente carece de uma versão mais curta (até porque de manhã estamos geralmente menos palavrosos) e que de tão "composta" se presta a economias. "Pequenal" não só é bem sacado como pode ter potencial de disseminação. Pelo que proponho que a usem no vosso dia a dia e que façam bom proveito! E para acabar de vez com os votos: desejo que em 2026 tomem sempre um bom "pequenal" e que "nossa senhora das eleições" nos ajude!