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Jornalistas reavaliam segurança de fontes e dispositivos após buscas do FBI a repórter

Operação do FBI na residência de uma jornalista do "Washington Post" evidencia, segundo especialistas, os riscos e desafios enfrentados pelos repórteres na proteção de fontes e informações sensíveis Foto: Sarah L. Voisin / The Washington Post via Getty Images

Operação do FBI na casa de Hannah Natanson, jornalista do "Washington Post", fez repórteres de diversos meios reforçarem a proteção de dispositivos e fontes, revelando preocupações sobre intimidação e segurança. Especialistas alertam que buscas a jornalistas são raras e podem dissuadir a liberdade de imprensa.

A operação do FBI na casa de Hannah Natanson, jornalista do "Washington Post", fez repórteres de diversos meios reforçarem a proteção de dispositivos e fontes, revelando preocupações sobre intimidação e segurança. Especialistas alertam que buscas a jornalistas são raras e podem dissuadir a liberdade de imprensa.

A operação teve impacto imediato na comunidade jornalística. Muitos repórteres reforçaram a proteção de telemóveis, computadores e informações confidenciais, alguns desligando softwares de reconhecimento facial ou passando a usar telefones temporários. A medida refletiu receios sobre a segurança dos dados e a intimidação potencial por parte das autoridades.

Veteranos do jornalismo e especialistas alertam que buscas a residências de jornalistas são raras e representam uma escalada preocupante. Laura Poitras, realizadora ligada a Edward Snowden, considerou a ação uma "escalada ultrajante", lembrando que é necessário adotar precauções adicionais ao lidar com fontes sensíveis. Martin Baron, ex-editor executivo do "Washington Post", destacou o desdém da administração Trump pela imprensa e alertou que episódios deste tipo podem aumentar a intimidação contra jornalistas. Alex Papachristou, do Cyrus R. Vance Center for International Justice, salientou que a operação envia um sinal de alerta que pode fazer com que fontes hesitem em partilhar informações.

Repórteres de grandes meios consultaram rapidamente redações e protocolos internos, revisando medidas de segurança e confidencialidade. Alguns passaram a adotar senhas mais rigorosas, sistemas criptografados e procedimentos internos para proteger fontes e dados sensíveis. A situação evidencia a crescente tensão entre governo e imprensa e a importância de garantir a liberdade de imprensa numa sociedade democrática.

O caso de Hannah Natanson

A busca que originou estas preocupações ocorreu na residência de Hannah Natanson, correspondente do "Washington Post" na Virgínia. A operação fez parte de uma investigação a Aurelio Perez-Lugones, administrador de sistemas em Maryland com autorização de segurança ultrassecreta, acusado de aceder e levar para casa relatórios de inteligência classificados.

O FBI apreendeu o telemóvel, o relógio Garmin e dois computadores portáteis, incluindo um do próprio "Washington Post". Segundo Matt Murray, editor executivo, nem Natanson nem o jornal sabiam que eram alvo da investigação. "Esta ação extraordinária e agressiva levanta questões profundas sobre as proteções constitucionais para o nosso trabalho", afirmou.

Natanson já se tinha descrito como a "sussurradora do governo federal" do "Washington Post", recebendo informações de funcionários sobre políticas e decisões internas da administração Trump. Apesar do risco, manteve a confiança das suas fontes, reunindo mais de mil contactos confiáveis durante a sua cobertura do funcionalismo federal.

A procuradora-geral Pam Bondi esclareceu que a operação decorreu a pedido do Pentágono e que Natanson não é acusada de qualquer crime. O objetivo era impedir a divulgação de informações classificadas obtidas de forma ilegal por Perez-Lugones, que se encontra detido.

A ação suscitou críticas de organizações de defesa da liberdade de imprensa e especialistas, que alertam para o efeito intimidatório que buscas como esta podem ter sobre os jornalistas e as suas fontes, reforçando a necessidade de proteger a independência e segurança da imprensa.

Sara Oliveira