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Europeus ameaçados com tarifas de Trump alertam para "perigosa espiral"

Minérios e futuras rotas comerciais por causa do degelo tornam ilha alvo de Trump Foto: Mads Schmidt Rasmussen / AFP

Anúncio feito por Trump de novas taxas aduaneiras até que a Dinamarca ceda a Gronelândia gera revolta, com União Europeia (UE) a debater utilização de inédita "bazuca" comercial.

O anúncio de Donald Trump, no sábado, de tarifas de 10% - que poderão chegar a 25% - contra os oito países europeus que realizam exercícios conjuntos no âmbito da NATO, na Gronelândia, provocou um sismo diplomático no Velho Continente. Diplomatas dos estados-membros da UE reuniram-se de emergência este domingo, em Bruxelas, e as oito nações visadas pelas taxas alfandegárias alertaram que a medida poderá "desencadear uma perigosa espiral descendente" nas relações.

"Queremos cooperação, não conflito. Estou satisfeita com as mensagens consistentes do resto do continente: a Europa não se deixará chantagear"

Mette Frederiksen, primeira-ministra da Dinamarca

"Como membros da NATO, estamos empenhados em reforçar a segurança do Ártico como um interesse transatlântico comum. O exercício dinamarquês pré-coordenado "Resistência Ártica", realizado com os aliados, responde a esta necessidade", sublinharam Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Países Baixos, Noruega, Suécia e Reino Unido, em comunicado conjunto. "Não representa qualquer ameaça para ninguém", acrescentaram.

"Conversei com o presidente dos Estados Unidos sobre a situação de segurança na Gronelândia e no Ártico. Continuaremos a trabalhar nisso"

Mark Rutte, secretário-geral da NATO

Este grupo foi alvo de Trump, que afirmou que os produtos destes países serão tributados, nos Estados Unidos, em mais 10% a partir de 1 de fevereiro, com o valor aumentando para 25% em junho. "Esta tarifa será devida e pagável até que seja estabelecido um acordo para a compra completa e total da Gronelândia", escreveu o chefe de Estado, alegando que os EUA subsidiaram a Dinamarca e os membros da UE "durante muitos anos".

"Manifestamos a nossa total solidariedade para com o Reino da Dinamarca e o povo da Gronelândia. Com base no processo iniciado na semana passada, estamos prontos para dialogar com base nos princípios de soberania e integridade territorial que defendemos firmemente", reforçaram os oito países que participaram nas manobras militares na Gronelândia, às quais os norte-americanos foram convidados.

"Acredito que impor novas sanções hoje seria um erro. Conversei com Donald Trump há algumas horas e disse-lhe o que penso"

Giorgia Meloni, primeira-ministra de Itália

"As ameaças tarifárias prejudicam as relações transatlânticas e podem desencadear uma perigosa espiral descendente. Continuaremos unidos e coordenados na nossa resposta. Estamos empenhados em defender a nossa soberania", concluíram.

Reunião em Bruxelas

Chipre, com a presidência semestral rotativa da UE, convocou os embaixadores do bloco para uma reunião de emergência em Bruxelas. No encontro iniciado ao final da tarde deste domingo, estava previsto que França apresentasse uma proposta para usar as medidas "anticoerção" do bloco, conhecida como "bazuca" comercial, que permite limitar o acesso a concursos públicos, investimentos ou atividades bancárias, além da importação de bens e serviços, incluindo digitais, para os 27.

"A própria essência da NATO é proteger a soberania e a integridade territorial dos seus estados-membros"

Barth Eide, ministro dos Negócios Estrangeiros da Noruega

A ameaça de tarifas extra contra certos membros da UE ocorre apesar do acordo, anunciado em julho, de que a maioria dos produtos do bloco seriam tributados pelos EUA em 15% - com valores específicos para certos setores, como alumínio e aço (com taxas de 50%). Em troca, os europeus comprariam alguns bens americanos isentos de tributação. O Parlamento Europeu precisa, todavia, de aprovar o texto.

"A nossa posição sobre a Gronelândia é inegociável. Deixámos isso bem claro e continuaremos a deixá-lo"

Lisa Nandy, secretária de Culturado Reino Unido

Em foco

Copenhaga na Truth Social
A rede social fundada e usada por Donald Trump, a Truth Social, ganhou um novo utilizador: o ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca. Lars Løkke Rasmussen pretende "comunicar diretamente para e com os americanos".

Scott Bessent defende chefe
O secretário do Tesouro americano saudou a decisão "estratégica" de usar o "poder económico" para "evitar uma guerra declarada". Ao canal NBC News, Scott Bessent argumentou que Trump quer "evitar um conflito" ao anexar a Gronelândia, que "só pode ser defendida se fizer parte dos EUA". "Creio que os europeus compreenderão que isto é o melhor para a Gronelândia, para a Europa e para os EUA", concluiu.

Gabriel Hansen