A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, negou esta segunda-feira que a palavra caos seja adequada para descrever o estado da Saúde em Portugal, mas admitiu a existência de problemas, sobretudo na região de Lisboa.
Ana Paula Martins reafirmou que não coloca a hipótese de se demitir. "Desistir é uma coisa que não vai acontecer, façam aquilo que fizerem", disse, refutando o que considerou serem "críticas absolutamente desproporcionais" ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), que geram "falta de confiança" nas populações.
"Tive oportunidade de ir ver na Wikipédia e em vários dicionários de sinónimos, e, de facto, caos significa descoordenação, desordem e ninguém se entender. E não me parece que se aplique ao Serviço Nacional de Saúde, graças aos seus profissionais", declarou, afirmando que a Saúde "é uma área extremamente atraente para quem tem de esgrimir argumentos mais entusiasmados, mas não é o facto de se dizerem inverdades muitas vezes que fazem delas verdades".
"Diminuição dos tempos de espera"
De visita às instalações do hospital distrital de Viana do Castelo, da Unidade Local de Saúde do Alto Minho (ULSAM), a governante declarou que, "em poucas semanas", deverá ser publicado um relatório com todos os indicadores da atividade no setor neste inverno, em particular nos últimos "dois meses e meio". E adiantou que este revelará "um aumento do fluxo na urgência devido à epidemia de gripe", mas, em contrapartida, "uma diminuição dos tempos de espera" em termos da "primeira observação".
"É verdade que houve três situações em Lisboa que destoaram deste padrão. Há razões para isso e por isso mesmo temos de investir mais nesta situação, não só na nossa atenção, mas também na gestão e contratação de profissionais", declarou a ministra, admitindo "dificuldades muito grantes" nos hospitais Amadora-Sintra, Beatriz Ângelo e Santa Maria, ao nível da urgência.
População de Amadora e Sintra tem aumentado 6% ao ano
"O diagnóstico está feito e sabemos exatamente o que é que é preciso fazer para melhorar os resultados a este nível. Só o Amadora-Sintra foi feito para responder a 250 mil pessoas e hoje responde a 600 mil", sublinhou a governante, referindo ainda que aqueles "concelhos têm crescido mais de 6% ao ano" e contam com "muitos fenómenos migratórios e de pobreza". "É necessária uma estratégia consistente nos próximos anos para conseguir dar resposta diferente daquela que estamos a dar hoje", defendeu.
"Temos de assumir que há problemas onde há problemas, mas não podemos dizer que na ULS Alto Minho, onde estou agora, a resposta é igual [ao caso anterior] e as pessoas não são bem tratadas e estão 18 horas à espera. Dizer isto do país é uma coisa arriscada. Mais do que isso: é perigosa", disse, comentando que "os portugueses acarinham e confiam nos seus profissionais".
"Não estou a falar dos ministros, não estou a falar até do nosso Diretor Executivo, nem do presidente do INEM e dos nossos institutos e Direção-Geral de Saúde. Estou a falar de todos vós. E por isso é que aguentamos estoicamente as críticas absolutamente desproporcionais aos nossos profissionais", afirmou.
Ana Paula Martins agradeceu aos profissionais de saúde pela resposta às "170 mil interações por dia, incluindo com a Linha SNS24, que se transformou uma espécie de espaço assistencial" dos cuidados de saúde.
"Tempestado perfeita" em Portugal
Sublinhou que tem sido "um inverno exigente" em toda a Europa, e que Portugal sofreu "uma pequena tempestade perfeita", em que se conjugaram três fatores: uma gripe mais severa, excesso de mortalidade e indicadores de pobreza ainda elevados - o que gerou elevada pressão no SNS, numa altura em que, na Europa e "especificamente em Portugal", os recursos humanos "não são suficientes para as necessidades enormes, algumas delas até emergentes, que apareceram depois da pandemia".
"Ainda temos um caminho pela frente e não podemos baixar a guarda", notou, referindo que a ULSAM é "exemplo" no que toda ao alívio dos serviços de urgência em situações como a que o país atravessa. "No Alto Minho, temos uma coisa extraordinária que não temos no Sul do país, que são equipas de saúde familiar, que fazem o acompanhamento das populações e que neste inverno se revelaram absolutamente fundamentais para aumentar a capacidade de fazer vigilância em situações agudas, mas menos urgentes. Isso retirou pressão, que já era muito grande e aumentou este ano, sobre as urgências", concluiu.