Porto

Pedro Duarte sobre caso de mulher morta há dois anos em casa: "Alguma coisa terá falhado"

Mulher foi encontrada morta no Bairro de S. Roque, em Campanhã Foto: Pedro Correia

A Câmara do Porto vai avançar com um "projeto piloto de acompanhamento de cidadãos, principalmente idosos, em situação de isolamento, para que possa haver um acompanhamento mais concreto, quase diário", anunciou o presidente da autarquia, Pedro Duarte.

O objetivo, assinalou, é evitar que aconteçam situações como a da idosa que estava morta há dois anos numa habitação municipal em Campanhã. "Alguma coisa terá falhado", reconheceu o social-democrata.

"Independentemente deste caso em particular ser de facto excecional, não podemos negar que há um problema, também na cidade do Porto, de isolamento de idosos, de solidão de idosos", afirmou Pedro Duarte, questionado pelos jornalistas à margem de uma visita ao Gabinete do Munícipe na manhã desta sexta-feira.

Sublinhando que o município tem uma série de programas para atenuar e combater o isolamento dos mais velhos, o presidente da Câmara do Porto admitiu que será preciso fazer mais. "Há um conjunto de programas e de outros veículos, como a teleassistência, precisamente para tentar impedir que estas situações ocorram. Mas a verdade é que elas continuam a ocorrer. E, portanto, isso significa que ainda não estamos a fazer tudo o que devemos fazer", frisou. Pedro Duarte referiu que a autarquia já tinha decidido reforçar a aposta nesta matéria, mas que agora a intervenção será ainda mais intensa e convicta.

O cadáver de Fernanda, 73 anos, foi encontrado ontem num apartamento do Bairro de S. Roque da Lameira, em Campanhã. A médica de família estranhou que a mulher não fosse à consulta há dois anos e deu o alerta. Quando as autoridades entraram na casa, viram o esqueleto da idosa. Fernanda era avessa ao convívio e, por isso, os vizinhos não estranharam não a ver na rua. Como também se constava que ia ser operada, muitos presumiram que tinha ido do hospital para um lar. Fernanda foi vista pela última vez no Natal de 2023. E como acumulava muito lixo em casa, nem o mau cheiro da habitação era motivo de alarme.

Ao longo deste tempo, a Câmara do Porto tentou mesmo despejar a moradora, por falta de pagamento, colocando regularmente avisos na porta. Ninguém se apercebeu que dentro daquela casa estava um cadáver.

"Sim, nós temos de concluir, em primeiro lugar, com toda a humildade, que alguma coisa terá falhado", reconheceu Pedro Duarte, sublinhando que a câmara está "a acompanhar o caso em detalhe" e explicando que o processo relativo à falta de pagamento de renda seguiu os trâmites habituais, com várias tentativas contacto.

"Nós temos é de perceber que, independentemente de termos feito tudo bem dentro do sistema que temos vigente e das regras terem sido todas seguidas, isso não foi suficiente. E portanto, temos de repensar provavelmente todo este modelo para que o acompanhamento de idosos vá um bocadinho mais longe do que existe hoje em dia", afirmou o presidente.

"Eu espero que este caso seja um despertador para todos nós, para a Câmara Municipal vai ser", garantiu, deixando também alguns alertas: "A situação é trágica e representa precisamente, eu diria, o contrário da sociedade que nós queremos construir, da cidade que queremos erguer e onde queremos viver. Acho que o espírito de comunidade que eu sempre tenho defendido visa precisamente impedir que este tipo de circunstâncias possam ocorrer".

"Independentemente, volto a dizer, de ser um caso excecional e de a própria pessoa se ter autoisolado, se me permitem a expressão, de uma forma muito intensa, não podemos sentir-nos desresponsabilizados nem deixarmos cair os braços. Temos de olhar para este caso trágico como um impulso para agora fazermos diferente no futuro", continuou.

"Nós temos, felizmente, e é importante que se diga, nos bairros sociais desta cidade, um espírito comunitário muito interessante. Os bairros promovem muito o espírito de vizinhança, de acompanhamento mútuo, mas aparentemente isso não é suficiente, é preciso irmos mais longe e não deixarmos que haja um caso que seja que aconteça", assinalou, também, Pedro Duarte.

Hermana Cruz