O reagendamento da reunião sobre o pacote laboral é inquietante pelo que demonstra sobre a incapacidade do Ministério do Trabalho em fazer o seu trabalho. Por motivos que se desconhecem, a ministra Maria do Rosário Palma Ramalho entendeu manter a reunião de concertação social marcada para quarta-feira passada, mesmo sabendo que nada ia concertar face à ausência anunciada da UGT, por motivos de agenda, um pouco como se marcasse um jogo entre solteiros e casados para que os primeiros passassem à fase de noivado pela simples não comparência. Foram singelos dez minutos. Com os patrões a recusarem reunir-se com a ministra sem a UGT e com esta central sindical a lamentar o sucedido, percebe-se a fragilidade: caso não haja acordo para a alteração da legislação laboral, dificilmente contaremos com esta ministra no cargo.
A reunião-fantasma foi considerada "extemporânea" pela UGT sem que a CGTP fosse sequer convidada a sentar-se à mesa, mesmo tratando-se de uma reunião tripartida no âmbito da Comissão Permanente de Concertação Social. Estas negociações "à margem" (expressão usada pelo secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira) mostram bem como as ilações da greve geral conjunta entre UGT e CGTP, a 11 de dezembro do ano passado, continuam fechadas na gaveta do anteprojecto de reforma laboral "Trabalho XXI" apresentado em julho, apesar deste país não ver uma greve geral unitária há 12 anos. A forma como o Ministério do Trabalho (não) tem lidado com este contexto é de quem resolveu meter baixa.
É sintomático que seja a ministra a ignorar a contraproposta da UGT, apresentada a 4 de fevereiro, ainda não discutida, e a desconhecer que as centrais sindicais continuam no terreno a quantificar danos e abusos laborais decorrentes da tempestade. Isto, sim, o que mais importa. A calamidade meteorológica que assolou o país motivou um conjunto de respostas complexas que continuam a deparar-se, tantas vezes, com uma atmosfera propícia a outras intempéries. Perante as denúncias de assédio laboral por patrões que procuram forçar trabalhadores sem casa a ir trabalhar, sem estradas e sem condições condignas de deslocação ou que, pelo contrário, os obrigam a férias forçadas, o lado grotesco da humanidade revela-se sem reforma, mas com grande margem para estragos. A insensibilidade social pode mesmo andar de mãos dadas com a incapacidade para gerir uma reforma com uma agenda simples.