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Jornalistas detidos nos Camarões ao investigarem deportação de africanos dos EUA

Foto: unsplash

Quatro jornalistas que investigavam nos Camarões a detenção de requerentes de asilo africanos deportados dos Estados Unidos foram detidos, num "ataque grave e inaceitável à liberdade de imprensa", afirmou, esta quinta-feira, a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

Num comunicado enviado hoje à AFP, a RSF deu conta da detenção dos quatro jornalistas "durante várias horas" na terça-feira, "com interrogatórios e confisco de equipamento", na sede da polícia judiciária na capital, Yaoundé.

Segundo a ONG, que denunciou "um ataque grave e inaceitável à liberdade de imprensa", os jornalistas estavam a investigar "a detenção nos Camarões de requerentes de asilo africanos deportados dos Estados Unidos".

"Estes atos de intimidação destabilizam ainda mais um ambiente mediático já marcado por pressões e abusos recorrentes", condena a RSF.

Oito imigrantes africanos - oriundos do Senegal, Serra Leoa e Etiópia - chegaram na segunda-feira aos Camarões, após terem sido deportados dos Estados Unidos.

Joseph Fru Awah, advogado que representa vários destes indivíduos e que estava com os quatro jornalistas, foi também detido na terça-feira, informou o New York Times.

Os Camarões juntam-se, assim, à lista de países africanos que aceitaram acolher cidadãos de países terceiros deportados pelo governo do presidente norte-americano, Donald Trump, seguindo os passos do Gana, Essuatíni, Ruanda, Guiné Equatorial e Sudão do Sul.

Não foi divulgado qualquer acordo entre os Camarões e os Estados Unidos que regule estas transferências, ao contrário dos assinados com a Guiné Equatorial e o Ruanda.

Segundo informações publicadas pelo The New York Times no sábado, estas deportações para os Camarões estão a ocorrer ao abrigo de um acordo secreto entre Yaoundé e Washington.

Um voo semelhante, transportando nove africanos deportados dos Estados Unidos, aterrou em Yaoundé a 14 de janeiro, segundo o jornal norte-americano.

Os Camarões são governados com mão de ferro há mais de 43 anos pelo presidente Paul Biya, de 93 anos. O país da África Central ocupa a 131ª posição entre 180 países no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2025, elaborado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

O assassinato, em 2023, do jornalista Martínez Zogo, especializado em denunciar a corrupção, provocou indignação e protestos públicos no país.

JN/Agências