Praça da Liberdade

HIGH AND DRY: Reflexões sobre o Janeiro Seco

É inevitável recorrer à melancólica balada dos Radiohead para se fazer uma adequada imersão no que desde 2014 a Alcohol Change UK, uma organização filantrópica britânica, tem vindo a tentar despertar no mundo, tendo em vista a redução dos danos causados pelo álcool: o desafio que convida à abstinência temporária do seu consumo, o "sobriety challenge", designado "Dry January".

Na realidade trata-se de uma proposta provocadora de não só parar para pensar, mas sobretudo...pensar em parar. Os números no mundo que justificam esta arrojada iniciativa atiram-nos mais de 120 milhões de casos e de 350 mil mortos/ano por cirrose alcoólica. E o omnipresente cancro que na União Europeia, só em 2020, viu mais de 110 mil casos causados directamente por si. Em Portugal, a mortalidade ligada ao consumo excessivo de álcool encontra-se também terrivelmente associada ao flagelo dos acidentes rodoviários, e ainda aos eventos laborais com quedas, afogamentos, queimaduras acidentais para além das lesões intencionais de autoagressão e violência interpessoal.

Os efeitos imediatos desta jornada de sobriedade são desde logo muito visíveis para quem se lança nesta aventura: melhores períodos de sono e repouso, mais energia, maior capacidade de concentração, sensação de bem-estar e de melhoria dos processos digestivos e, de não menos importância, um gratificante sentido de conquista. E tudo isto acontece pelo maravilhoso e complexo processo regenerativo do fígado (sábia e metaforicamente explicitado no mito de Ptolomeu) que com estas pausas temporárias do belicismo do álcool, vai limpando a gordura (esteatose) que ele faz patologicamente acumular-se na estrutura hepática, bem como a inflamação que muitas vezes se associa à progressiva deposição. É essa inflamação que quando perdura, promove a formação de cicatrizes que vão deformar estrutural e funcionalmente o fígado, tornando-o sede da ominosa cirrose, cujo desenvolvimento poderá vir a constituir o albergue final do carcinoma hepatocelular (o cancro do fígado).

O maior benefício desta decisão temporária é o de criar um espaço de oportunidade de reflexão para reajustar o consumo de álcool para todo um ano. Ou para uma vida. As redes sociais até podem ajudar, na partilha de testemunhos positivos e gratificação pelos progressos que individualmente se vão palmilhando. E na publicitação dos novos activistas por esta causa, que incluem ícones globais da juventude, na música ou no cinema, como Ed Sheeran ou Ashton Kutcher. Ter tempo para que o individuo se possa questionar, intimamente, é um passo fundamental para que a consciencialização do comportamento de ingestão que cada um adopta, seja integralmente compreendido por si próprio. Essa tomada de consciência vai permitir que cada um assuma e entenda que opções vai tomando, que limites consegue negociar, como regula e como pode inibir o seu padrão de consumo, para preservação do próprio e dos seus circunstantes familiares e sociais. A adição alcoólica, grave doença cronica e progressiva, pode estar

ao dobrar da esquina de quem pensa que só bebe socialmente, ou esporadicamente, ou só para desinibir em contextos festivos e celebracionais. Quem bebe excessivamente, adquire a tendência e capacidade de manipular a sua própria consciência, com sistemática despenalização e auto indulgencia, que muitas vezes só os amigos e familiaresconseguem identificar e transmitir aos profissionais de saúde - nos casos felizes em que nos procuram - combatentes nas frentes preventivas e terapêuticas desta insidiosa condição.

Nas múltiplas estratégias preventivas, tal como a Organização Mundial de Saúde preconiza, podem entrar as subidas de impostos e preços sobre bebidas alcoólicas, a limitação de locais, horários e dias de venda, rotulagem informativa e até a redução de exposição de crianças e jovens à publicidade de apelo à vertigem consumista. Mas a grande tarefa de ataque passa pela criação e ampliação das consultas especificas e de estratégias estruturadas de acompanhamento preventivo e terapêutico continuado, nos Centros de Saúde e Hospitais. Essa tão impactante tarefa é clara e tristemente, uma prioridade por cumprir no nosso país. Também por isso, uma decisão de experimentar suspender por um mês, e logo no início do ano, o consumo de bebidas alcoólicas, pode tornar-se verdadeiramente num "life-changing event". Não será uma penitencia nem uma conversão. Mas um tempo de consciência, introspeção e de ajuste comportamental. Do desmontar o reflexo automático de ter de beber para socializar. De assumir a liberdade de verdadeiramente poder optar. Do mitigar a contínua desvalorização das controvérsias associadas ao consumo de bebidas alcoólicas. De dar uma segunda vida a conceitos enquistados.

Por isso, apreciemos e reflitamos sobre o "shaken, not stirred" do Casino Royale, ou melhor, do epitome de sofisticação de James Bond: será que era para explicar que o vodka Martini deveria ser apropriadamente diluído ou...que se deve ser abanado sem se ser abalado?

Guilherme Macedo