Praça da Liberdade

Um horizonte limpo

Quando perguntaram a Hitchcock qual a sua definição de felicidade, respondeu: "um horizonte limpo". A minha cabeça de escritora associa horizonte limpo a ausência de culpa. Alfred nasceu em Inglaterra em 1899 numa família católica e frequentou o ensino jesuíta. A sua singular obra cinematográfica está recheada de sentimentos de vergonha e de culpa, em relação aos quais o seu interesse profundo pelos trabalhos de Freud e de Jung não terá sido alheio.

Uma das heranças mais pesadas da religião católica é a culpa. É por causa dela que o ser humano aponta o dedo ao seu semelhante com tanta facilidade. Passar a culpa para ombros alheios é uma forma eficaz de aliviar a nossa. Nos dias seguintes à tempestade Kristin, o tom acusatório ensombrou notícias, reportagens, comentários e debates, como se fosse possível atribuir ao Governo, à Proteção Civil ou a qualquer outra entidade a culpa pelo ocorrido. Cheguei a ouvir na rádio alguém comentar que, com a quantidade de alertas que recebemos por SMS, as pessoas já nem ligam, como se o dever simples e eficaz de alertar a população fosse contraproducente. Não é. Contraproducente é arriscar uma viagem de carro numa estrada inundada, ou não abandonar temporariamente uma habitação depois de as autoridades terem recomendado. Contraproducente é, em última análise, afirmar que enviar avisos à população é contraproducente.

Se é verdade que o Governo foi lento a decretar o estado de calamidade, também é um facto que, desde que o fez, Luís Montenegro, ministros e secretários de Estado arregaçaram as mangas e nunca mais pararam, bem como os autarcas, que enfrentaram a intempérie com serenidade e dedicação extrema, enquanto prestavam diariamente informações à comunicação social. Destaco três mulheres: Ana Abrunhosa, em Coimbra, Clarisse Campos, em Alcácer do Sal, e Raquel Soares Lourenço, em Sobral de Monte Agraço, que com apenas 28 anos é a mais jovem presidente de Câmara do país.

Contudo, o que mais me enche o coração é assistir à mobilização espontânea dos portugueses. Uma semana depois da primeira tempestade, Nuno Carvalho, construtor civil, natural do Carvalhal, na região da Comporta, carregou um dos seus camiões com 3000 telhas, 300 telhões, 400m2 de lona, quatro toneladas de cimento, e rumou com destino à Marinha Grande. A entrega contou com a ajuda do exército e de voluntários, que têm sido os protagonistas destas semanas. No passado fim de semana, aproveitado a tolerância de ponte, foram muitos os que escolheram passar esses dias a ajudar o próximo. Um viva a todos os Nunos, que abraçam a ajuda ao próximo sem esperar nada em troca.

Perante uma crise, um acidente ou uma catástrofe, o português arregaça as mangas e dá o seu melhor. Quando começou a Guerra na Ucrânia, além de toda a ajuda humanitária entregue junto à fronteira da Polónia, Portugal acolheu cerca de 60 mil pessoas, dando-lhes proteção e proporcionando-lhes acesso a cuidados de saúde, educação e emprego. Durante a Segunda Guerra Mundial estima-se que quase um milhão de refugiados passaram por aqui escapando ao horror nazi. O nosso cônsul em Bordéus Aristides de Sousa Mendes salvou a vida a mais de dez mil judeus, emitindo vistos à revelia das ordens superiores. Só entre os dias 17 e 19 de Junho de 1940, terá emitido cerca de 3000 vistos. A sua contribuição humanitária excecional valeu-lhe a expulsão da carreira diplomática por Salazar. E por falar no ditador português, em novembro de 1967, aquando das cheias em Lisboa, morreram 700 pessoas e cerca de 20 mil habitações ficaram destruídas. A resposta do Estado foi lenta e ineficaz, e a máquina da censura salazarista abafou a real dimensão da catástrofe. A ajuda às vítimas veio da sociedade civil e de organizações católicas. Salazar sabia cultivar a culpa, mas não soube assumir a responsabilidade da tragédia. Nunca mais podemos voltar atrás, se queremos um horizonte limpo para Portugal.

Em voo

Um louvor à atuação sensata e competente acompanhada de uma postura serena e tranquila da presidente da Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa, perante a crise provocada pelas cheias em Coimbra. A sua larga experiência enquanto ministra da Coesão Territorial entre 2019 e 2024 certamente ajudou e o seu charme natural derreteu o presidente dos afetos. Literalmente.

Em queda

Inexplicável a atitude da UGT de não comparecer à reunião convocada pelo Governo para discussão da lei laboral, alegando que não lhe era possível na data de 18 de fevereiro, nem mostrando disponibilidade durante toda a semana para a realização da mesma.

Margarida Rebelo Pinto