Praça da Liberdade

A sorte moral

"É das elites que sai a maior ralé." Eu às vezes uso frases minhas - este é um dos casos - e quando me veio à cabeça trazia um sentido, tinha a ver com a alta finança portuguesa, com os poderosos e políticos que na verdade eram criminosos e aldrabões a roubarem sem vergonha o dinheiro dos outros e do Estado, e a deixarem-nos a conta das suas mastodônticas falências: a sequência de três vezes três letras manhosas dos bancos BNP, BPP e BES.

A frase voltou-me ontem à cabeça ao ver a fotografia do ex-príncipe André de Inglaterra - um príncipe de sangue destituído é por si só tragicómico - André preso num carro da polícia com aquele olho demoníaco vermelho do flash em cheio no cristalino, e que, além de abusador sexual cúmplice do pedófilo financeiro Jeffrey Epstein, o destruidor da vida de centenas de raparigas e crianças, era também um traidor dos segredos do seu país. Está mesmo provado nos famosos ficheiros Epstein - e ainda a procissão vai no adro - que existe um grupo de privilegiados mundiais, fechados entre si, desde financeiros a artistas, cientistas, políticos, a cometerem as piores porcarias convencidos de que nunca serão apanhados. Acima dos mortais. É das elites que sai a maior ralé.

É um dos assuntos principais da Justiça (e da Injustiça): ser ou não ser apanhado. Já agora, liga-se lateralmente à estranha ideia de "sorte moral". Um artigo de Peter Coy, articulista do jornal "The New York Times", com o título "Quando ser bom é apenas uma questão de ter sorte", começava assim: "A punição criminal para homicídio é mais severa do que a punição para tentativa de homicídio. Mas não é completamente óbvio porquê. A pessoa que tentou matar outra, mas falhou, é tão má como a outra."

Uma das explicações, continuava, era precisamente a "sorte moral", um conceito criado apenas em 1976 pelo filósofo inglês Bernard Williams, sabendo que isso ia deixar as pessoas baralhadas. Disse este: "Quando introduzi a expressão sorte moral, eu esperava estar a criar um oxímero", isto é, duas ideias que mutuamente se contradizem, se anulam, porque pela lógica ninguém ia dizer que a moralidade teria alguma coisa a ver com sorte. Na verdade, numa quase brincadeira, criou um conceito certeiro que serve para tanta coisa na vida. Perdoem-me pegar noutra ideia de outro, no caso Robert Hartman, professor de Filosofia no Ohio, que nos pede para imaginarmos quatro mulheres amigas. A primeira conduz bêbeda e mata uma pessoa. A segunda conduz embriagada e perde o controlo do seu carro, mas por sorte não mata ninguém. A terceira tinha a intenção de conduzir bêbeda mas, por sorte, perde a chave do carro e tem de apanhar um táxi para casa. E a quarta é igualzinha às suas amigas mas, enfim, por sorte... tem problemas de visão e nunca conduz à noite.

E agora? Partimos de uma situação semelhante - pessoa com carro e com os copos - mas, na verdade, temos graus de culpa diferentes, e diferente punição real, desde a primeira que matou alguém à outra, final, que parece que não fez nada.

E isto é um bocado aborrecido de lembrar, principalmente aos condutores que me leem, mas quantas vezes na vida não estiveram... estivemos... a um milímetro de desgraçar a existência, e nada, nada, olha não aconteceu nada. Ser moralmente culpado, mas ter sorte moral.

E lembro aquele homem que vi num tribunal em Lisboa, levado pela polícia depois de um acidente. A mulher dele já tinha informado que nunca, nunca mais o queria ver na vida, mas ele não sabia disso, o homem ainda estava bêbedo e só perguntava pela filha, se ela estava bem, onde é que estava a sua filha de 12 anos. E no átrio do tribunal um triste polícia contou-me: "Ainda ninguém teve coragem de lhe dizer que ele matou a filha."

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Rui Cardoso Martins