Média

Jornal de Famalicão suspende publicação por "concorrência" do boletim municipal

"Opinião Pública" culpa publicação de boletim municipal atualizado Foto: Artur Machado/Arquivo

O jornal "Opinião Pública", de Vila Nova de Famalicão, anunciou esta quarta-feira a suspensão da publicação em papel por tempo indeterminado, por considerar que o novo formato do boletim municipal é "uma concorrência impossível de bater".

Em declarações à agência Lusa, o administrador do grupo Editave Multimedia, que detém aquele jornal, disse que se trata de um boletim municipal "travestido de jornal" e "uma cópia perfeita de um jornal a sério". "E isso é perigoso, porque confunde quem lê e asfixia os jornais como o nosso, que apenas vive à custa dos seus anunciantes", sublinhou Arcindo Guimarães.

Em causa o lançamento, este mês, pela Câmara de Vila Nova de Famalicão, do "efe", que resulta da reformulação do boletim municipal. "Para além das alterações ao nível da designação, do design e do formato, o renovado boletim municipal de Famalicão apresenta também mudanças ao nível do conteúdo: deixa de ser uma publicação centrada na atividade autárquica, para ser também um instrumento de valorização do território e dos seus protagonistas", refere o município.

A Associação Portuguesa dos Media Digitais Online (APMEDIO) já enviou uma comunicação à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), considerando que o lançamento do "efe" se assume como "um agravamento de práticas de comunicação institucional por parte de autarquias locais que poderão estar a ultrapassar o enquadramento legal aplicável e a afetar o funcionamento da imprensa regional independente".

Para a APMEDIO, a publicação de Famalicão exibe "uma linha gráfica, editorial e informativa típica de um jornal generalista, ultrapassando o âmbito da informação administrativa e institucional que deve enquadrar a comunicação das autarquias".

A associação sublinha que estes projetos representam uma "ocupação indevida do espaço mediático local", uma vez que são financiados com recursos públicos, mas escapam às obrigações legais, económicas e deontológicas impostas aos verdadeiros órgãos de comunicação social.

Esta quarta-feira, o "Opinião Pública" anunciou a suspensão, ao fim de 36 anos, da publicação em papel.

O administrador diz que o "efe" está "a tomar a dianteira da linha que separa o jornalismo da informação institucional".

"Faz publirreportagens, promove restaurantes e alojamentos, usa terminologia jornalística, tem até "primeiras mãos", passa a ser um autêntico órgão de comunicação social igual aos outros, só que à conta do dinheiro dos contribuintes, fazendo uma concorrência desleal e asfixiando os verdadeiros jornais. Se alguém consegue ter publicidade de borla no jornal da câmara, obviamente já não precisa de recorrer a nós", referiu Arcindo Guimarães.

Acrescentou que o "efe" tem duas rubricas com nomes "usurpados" de outros órgãos de comunicação social do grupo Editave Multimedia, designadamente "de lés a lés" e "à conversa com".

"No total, na primeira edição foram publicados 61.750 jornais para distribuição gratuita pela população, mais 10 mil jornais do que o número de habitações existentes no concelho de Famalicão. Uma distribuição feita pelos CTT e paga pelo dinheiro de todos nós. Como podem os outros jornais competir com isto?", questionou.

O município já disse que o "efe" é uma publicação institucional e "não é, nem pretende ser, um produto concorrencial da imprensa local e regional". Acrescentou que, com esta nova publicação, de periodicidade bimestral, reforça o compromisso de informar, envolver e valorizar a comunidade.

A publicação já foi criticada por toda a Oposição, que considera que a prioridade deveria ser reforçar o apoio à imprensa local e que aconselha o executivo a usar os cerca de 100 mil euros anuais que vai gastar com o "efe" na redução de impostos.

Câmara rejeita acusação

A Câmara de Vila Nova de Famalicão rejeitou "liminarmente" a acusação de que o renovado boletim municipal possa estar na base da decisão do grupo Editave de suspender o jornal "Opinião Pública". Em comunicado enviado à Lusa, a Câmara reitera que o "efe" "não é, nem pretende ser, um produto concorrencial da imprensa local e regional, por quem a autarquia tem um enorme respeito e com quem continuará a manter uma profícua colaboração institucional".

Acrescenta estranhar a "indignação" com os novos conteúdos plasmados no renovado boletim, sublinhando tratar-se de "uma prática comunicativa que a Câmara Municipal tem vindo a seguir há já vários anos para valorização da atividade autárquica, mas também do território e dos seus protagonistas".

A Câmara estranha também "que seja colocada em causa a legitimidade de uma instituição decidir onde, quando e como anuncia aquilo que diz respeito à sua atividade".

JN/Agências