Opinião

Tempos (de homens) loucos

Dizer que vivemos tempos complexos é um eufemismo. Os acontecimentos desencadeiam-se de forma frenética desde que Trump voltou ao poder e quanto mais se fala do caso Epstein, da estagnação económica e das críticas à sua política violenta de controlo da imigração, mais ele investe em manobras de diversão. O problema é que as cortinas de fumo metafóricas foram substituídas por fumo de bombardeamentos, e da Palestina à Venezuela e, agora, ao Irão, a escalada bélica dos EUA (aliados ao Estado de Israel) vai tornando a instabilidade do Mundo ainda mais imprevisível. Em poucas semanas, e antes que a justiça americana conseguisse acusar e prender uma pessoa sequer por ligações a Epstein, Trump já sequestrou o presidente venezuelano e matou o líder iraniano.

São tempos de guerra na Europa e no Médio Oriente, de crise climática, de crescimento dos discursos de ódio e em que as perspetivas de recessão parecem cada dia mais prováveis. E mesmo assim, perante tantas calamidades, dizer que estamos cansados de assistir a eventos históricos em catadupa soa a discurso de "millenial" mimado e a problema de primeiro mundo. Quando, na verdade, a minha geração, nascida ainda na Guerra Fria, com o FMI em Portugal, só viveu a prosperidade nos curtos anos 90 (e enquanto estava na escola), já que, depois de assistir ao 11 de Setembro em direto, sofreu com a crise de 2008 nos primeiros anos de vida profissional, imigrou e regressou, sempre a adiar a casa própria e a parentalidade, com a crise da habitação a agudizar-se, para passar por uma pandemia com crianças em casa e, agora, ter de temer que essa prole venha a formar o exército do futuro, num Mundo em que o Direito Internacional parece ter expirado como um iogurte.

Não nos bastava a ansiedade de pensar que os nossos filhos terão de enfrentar condições climáticas extremas e escassez de recursos naturais. Não nos bastava saber que é infinitamente mais provável que venham a ser refugiados do clima do que homens e mulheres ricos. Para termos de viver com o medo de que se tornem soldados de guerras alheias, defendendo interesses turvos, num jogo geopolítico comandado por supervilões que nem sequer escondem a malignidade da sua agenda.

É, por isso, especialmente triste que nem a neutralidadezinha salazarista se adivinhe, pois com este Governo e a sua política externa cobarde, só podemos esperar joelhos dobrados e falta de coragem para dizer que não. Que a base das Lajes e os nossos portos não servem para alimentar os ímpetos bélicos de um homem louco e que legitimar uma escalada imperialista com desculpas esfarrapadas é subestimar a nossa inteligência. Que nem se faz a paz através da guerra, nem a intenção destes facínoras é libertar os povos das tiranias e as mulheres do jugo opressor. Até porque, se a prioridade dos EUA fosse a democracia, a justiça ou os direitos das mulheres, tinham muito com que se entreter com o caso Epstein.

Capicua