Há uma mágoa que Pedro Passos Coelho nunca ultrapassou. E não me refiro ao facto de ter sido o mais votado nas legislativas de 2015 e, mesmo assim, ter visto a maioria de Esquerda capitaneada por António Costa formar Governo. Passos não teve tempo, nem oportunidade, de liderar o país num contexto de bonança e estabilidade, como aquele em que hoje vivemos. E esse é o maior dínamo motivacional para alguém que, orientado por um ímpeto reformista, continua a ter colada a si, quase exclusivamente, a imagem da austeridade e da malfadada troika. Nos anos em que fez o luto da geringonça, Passos foi mantendo, porém, uma distância calculista do poder, alimentando, ainda que pela ausência, uma certa aura salvífica que muitos lhe atribuem.
Para alguma Direita, ele foi (é) a reserva moral capaz de aglutinar todas as sensibilidades - incluindo essa efervescência chamada Chega. A palavra de Passos ainda ecoa junto de alguns corações, mas o momento escolhido pelo ex-primeiro-ministro para se atravessar no caminho de Luís Montenegro está desconectado da realidade. Montenegro tem o partido na mão, o maior do espectro nacional, saiu reforçado das legislativas e terá, até ver, um formalista sentado em Belém que prezará a estabilidade governativa a todo o custo. Ora, não sendo de esperar que Passos esteja a marcar terreno para ficar com o lugar de António José Seguro (que ainda nem morno está), só há duas hipóteses no horizonte: Passos quer minar o capital político do PSD, esperando que Montenegro cometa um erro capital (pouco provável); ou quer correr em pista própria, com um novo movimento (pouco recomendável). Em nenhum dos casos sai favorecido. Com a agravante de que, até agora, só disse que faria diferente sem explicar exatamente como. Passos, na verdade, luta contra si próprio.