Paulo Ferreira

Notícias do bom Portugal

O leitor imagine-se proprietário de uma empresa que decide ir a uma feira do setor em Shangai mostrar os seus produtos. Pense que, na mostra, tem 3000 expositores de uma dezena de países a ombrear consigo. Convenhamos que, estando num evento de dimensão e importância grande como é (foi) o "Furniture China 2012", pelo menos um friozinho na barriga o há de apoquentar, quando chega a hora de saber se algum dos produtos que levou à feira entusiasmou o júri. Por mais confiante que esteja, é preciso contar com a fortíssima concorrência.

O leitor imagine agora que um dos seus produtos sai vencedor numadas categorias a concurso. O esforço de anos, as dificuldadesquotidianas que foi obrigado a ultrapassar, as apostas que resultaramda estratégia definida, o trabalho dos seus colaboradores, tudoacaba de ser reconhecido. O prémio é recompensador, no mínimo. Oprémio é a prova de que vale a pena lutar, desde que a alma nãoseja pequena.

A Fenabel, empresa de Paredes especializada no fabrico decadeiras em madeira, foi distinguida, este mês, com o primeiroprémio de mobiliário infantil na "Furniture China".

Não conheço Elsa Leite e Mário Leite, o casal que comanda amaior produtora de cadeiras portuguesa. Mas, quando um amigo me deuconta do prémio que tinham conquistado, apeteceu-me endereçar-lhesnão apenas os parabéns, mas também um sincero obrigado. Aquificam.

Bem sei que, felizmente, há no nosso país e em vários setoresde atividade empresas que, como a Fenabel, estão a conquistarmercados e clientes. A crise não lhes passa ao lado, mas também nãolhes destrói o ânimo - é aqui que reside a diferença entre quemacredita e quem esmorece.

Não é coisa pouca, esta de andar para a frente quando nos puxampara trás. Tal como está - e continuará a estar -, o paísdesfaz, com uma velocidade impressionante, vidas construídas apulso. Exemplos como os da Fenabel são um balão de oxigénio paraquem, como a maioria dos portugueses, só tem folga nas costasenquanto o varapau da austeridade vai e vem.

Claro: o sucesso da empresa de Paredes (conhecida como "oalfaite de cadeiras do Mundo", por ter um serviço capaz deresponder às necessidades específicas de cada cliente, como oalfaite faz com os fatos) não é fruto do acaso. É fruto daflexibilidade na produção proporcionada pelo know-how, pelatecnologia e pela organização. Quer dizer: é resultado de umaestratégia com cabeça, tronco e membros.

Tenho para mim que ministros como os da Economia ganhariam muito(eles e o país) se fizessem um estágio de seis meses em empresascomo a Fenabel. Ali, antes do Excel, há gente de carne e osso aproduzir, a fazer economia. Ali há vida para além do défice.

Paulo Ferreira