Pedro Bacelar de Vasconcelos

Mário Soares

Na entrevista concedida ao jornal "Público" do passado domingo, Mário Soares faz um juízo severo sobre Portugal e a Europa, descreve o estado atual da democracia, deplora o descrédito da política e a crise dos partidos, denuncia as políticas de austeridade promovidas na Europa por "esta gente de extrema-direita que acredita que os mercados são mais importantes que os Estados e as pessoas!".

É um fundador do nosso regime democrático e principal responsável pela adesão de Portugal à Europa quem agora assume o dever de avisar que é a própria democracia que corre perigo, e é ele quem lança o alerta de que "se isto não muda é o abismo para a Europa".

A dureza do diagnóstico não obscurece a sua fidelidade aos princípios democráticos nem aos ideais da construção europeia. Pelo contrário, as suas palavras são o testemunho exato da crença de que ainda vamos a tempo de evitar que a indignação degenere em violência generalizada e incontrolável - com o risco de se abrirem as portas ao "fascismo ou uma ditadura com outro nome" - e consegue discernir com esperança os sinais de que a Europa vai finalmente ser obrigada a mudar de rumo para se reencontrar, reinventar a solidariedade que marcou a sua conceção e nascimento, e salvar a união monetária.

Não poupa sequer o Presidente da Comissão. No seu balanço, os dois mandatos de Barroso à frente da Comissão Europeia foram desprestigiantes para Portugal. Os problemas vividos em Portugal nunca são analisados separadamente da situação da Europa e do Mundo. Mário Soares exprime a sua indignação perante a destruição do país, a paralisia do Governo, a indiferença do Presidente, a impunidade dos que roubaram o Estado "em bancos e fora de bancos". E explica as razões que o levaram a promover o "encontro das esquerdas" na "Aula Magna": "o objetivo era fazer pensar as pessoas. Há hoje muita gente que não é dos partidos, muita gente que está contra os partidos e contra os políticos. É preciso que os partidos percebam que os tempos mudaram...". "É uma questão europeia e até mundial. Ninguém gosta da política, porque a política foi muito desprestigiada pela gente do dinheiro". Por isso, há que traçar uma fronteira bem clara entre a política e os negócios. E dá o seu próprio exemplo: "nunca fui homem de negócios." Tal como Salgado Zenha, recorda, "quando fui eleito deputado entreguei o meu cartão de advogado à Ordem. Até hoje".

Em 1987, Cavaco Silva era o primeiro-ministro de um Governo minoritário. Mário Soares era o Presidente da República que, em janeiro de 1986, tinha derrotado na segunda volta das eleições presidenciais o candidato apoiado por Cavaco Silva. Com o voto favorável do PS, decidido à última hora pelo então secretário-geral, Vítor Constâncio, e com Mário Soares ausente no Brasil, em visita oficial, a Assembleia da República aprovou uma moção de censura que provocou a demissão do Governo. Contra os que pretendiam promover a formação de um Governo da Oposição, incluindo alguma gente do PS, o Presidente da República optou por dissolver a Assembleia e convocar eleições legislativas antecipadas que iriam dar ao PSD a maioria absoluta. Mário Soares explica que o seu primeiro objetivo era defender a "unidade do país". "Fui Presidente eleito por uma escassa maioria, não queria que o país ficasse dividido em dois". E nesse gesto lúcido consumou todo o sentido útil do nosso original "semipresidencialismo".

Não há salvação isolada para os Estados-membros da União. Dois dias antes da publicação da entrevista de Mário Soares, era a vez de Daniel Cohn Bendit reagir contra a tentação do ceticismo suscitada pela denúncia aguerrida dos desastres presentes da construção europeia - no âmbito da conferência de "Os Verdes", organizada por Rui Tavares no "Mercado da Ribeira", em Lisboa: "Salvar a Europa a partir do Sul" - fazendo ali um apelo veemente em defesa dessa "utopia generosa" que a Europa tem de continuar a prometer. O projeto europeu continua de pé, como instrumento da paz, da liberdade, da democracia, da solidariedade entre os povos, do progresso. Deste lado da barricada estamos em muito boa companhia.

POR, PEDRO BACELAR, DE VASCONCELOS, PROFESSOR DE DIREITO, DA UNIVERSIDADE, DO MINHO