Saúde

Cientistas alertam para "epidemia silenciosa" de perturbações neurológicas

Dois dos maiores especialistas mundiais na ligação entre o ambiente e a saúde alertam, esta sexta-feira, que os químicos industriais a que as crianças estão sujeitas diariamente podem estar a provocar uma "epidemia silenciosa" de perturbações do desenvolvimento.

O alertasurge na revista científica The Lancet Neurology e os autores apelamaos países que mudem os seus procedimentos de avaliação dos riscosdos químicos para proteger as crianças destas toxinas.

Em causaestão químicos como o mercúrio, o chumbo e certos solventes epesticidas, que estão presentes em objetos tão comuns como a roupa,o mobiliário ou os brinquedos.

Segundo oartigo agora publicado, o número de químicos que reconhecidamenteprovocam perturbações do desenvolvimento neurológico duplicou nosúltimos sete anos, de seis para doze, enquanto a lista de químicosque se sabe prejudicarem o cérebro humano mas que não estãoregulamentados para proteger a saúde das crianças também aumentou,de 202 para 214.

"Asatuais regulamentações dos químicos são largamente inadequadaspara proteger as crianças, cujos cérebros em desenvolvimento sãoparticularmente vulneráveis aos químicos tóxicos no ambiente",diz Philippe Grandjean, da Escola de Saúde Pública de Harvard, emBoston.

"Enquantonão existir um requisito legal para que os fabricantes provem quetodos os químicos industriais existentes e todos os novos químicossão não tóxicos antes de entrarem no mercado, na linha da lei daUnião Europeia [para o registo, avaliação, autorização erestrição] dos químicos, REACH, enfrentamos uma pandemia detoxicidade para o desenvolvimento neurológico".

Asperturbações do desenvolvimento neurológico, como o autismo, odéfice de atenção, a dislexia ou a paralisia cerebral, afetam umaem cada seis crianças em todo o mundo, havendo cada vez mais provasque ligam a exposição a químicos na infância a níveis mais altosdestas doenças.

Umcontrolo mais apertado da utilização destes químicos permitiriapoupar milhões de dólares, alertam os autores, recordando que oscustos anuais do tratamento do envenenamento por chumbo nos EUA, porexemplo, são de cerca de 50 mil milhões de dólares.

MasGrandjean e o coautor do artigo, Philip Landrigan, da Escola deMedicina Monte Sinai, em Nova Iorque, sublinham que este númeropoderá ser apenas a ponta do icebergue.

"Avasta maioria dos mais de 80.000 químicos industriais utilizados nosEUA nunca foram testados nos seus efeitos tóxicos para odesenvolvimento do feto ou da criança. A exposição a estesquímicos durante as fases iniciais do desenvolvimento pode causardanos cerebrais em níveis muito mais baixos do que os que afetam osadultos e o real impacto na saúde das crianças só agora está acomeçar a revelar-se", referem.

Os doismaiores obstáculos aos esforços para limitar os químicos queameaçam a saúde das crianças são as grandes falhas nos testes àsua toxicidade para o desenvolvimento neurológico e a enormequantidade de provas exigidas para que se possa regulamentar.

"Aúnica forma de reduzir a contaminação tóxica é tornarobrigatórios os testes à sua toxicidade para o desenvolvimentoneurológico dos químicos novos e já existentes", dizLandrigan.

"Umaabordagem cautelosa deste género significaria que uma indicaçãoprévia de potenciais efeitos tóxicos graves levaria a umaregulamentação forte, que poderia depois ser relaxada se provassubsequentes demonstrassem que os danos eram menos graves",acrescenta.

Os autorespropõem uma estratégia internacional de prevenção que ponha oónus nos produtores de químicos, e não nos governos, de provaremque os seus produtos são de baixo risco, usando um processosemelhante ao que é exigido às farmacêuticas, e uma nova agênciareguladora internacional para coordenar e acelerar estas medidas.

"Onúmero total de substâncias neurotóxicas atualmente reconhecidas équase certamente uma pequena parte do verdadeiro número desubstâncias tóxicas para o desenvolvimento neurológico libertadaspara o ambiente global", dizem.

"Anossa grande preocupação é que as crianças de todo o mundoestejam expostas a químicos tóxicos não reconhecidos que estãosilenciosamente a corroer a inteligência, a perturbar ocomportamento, a truncar as conquistas futuras e a danificar associedades, talvez mais seriamente nos países em desenvolvimento".

Redação