Sexta-feira, há quatro mulheres e 350 homens, talvez mais, na improvisada mesquita do Porto. Ouvem falar na paciência do profeta. "O Islão não é aquilo que está a acontecer". Esta é uma visita a uma comunidade discreta.
Paris está quente. Ferve no ar frio da mesquita improvisada atrás de uma normal montra de loja da Rua do Heroísmo, no Porto oriental. Que Paris foi mal. A reação do profeta a uma provocação é a da paciência. Que aquilo foi obra de fanáticos a quem falta algo tão simples: o conhecimento. "Está na hora de todos nós, muçulmanos, crentes, de paz, fazermos a nossa divulgação de que o Islão não é isto que está a acontecer". Tudo isto entoa nas duas salas de repente cheias do Centro Cultural Islâmico do Porto. Como entoa a tristeza pela agressão de que o Islão foi alvo com os sucessivos cartunes do "Charlie Hebdo". Que o Islão é, pura e simplesmente, contrário à representação de profetas, por ser contrário à adoração para lá da que se deve a Deus.
Conhecimento. Parece ser a palavra chave do discurso de Abdul Rehman Mangá, nascido português no Moçambique que ainda tinha como capital Lourenço Marques. Meia hora dele, em português. Abdul Kadir, o jovem imã vindo de Marrocos, haveria de dizê-lo, depois, em árabe. Antes da oração principal de sexta-feira. Conhecimento. E dar a conhecer, a perceber o Islão seria bem mais fácil se a comunidade muçulmana no Grande Porto, cinco mil pessoas, números redondos, pudesse ser visível. E só não pode, ainda, porque lhe falta uma mesquita construída de raiz. Uma mesquita como a de Lisboa, que convidasse o mundo a entrar e perceber. "Estamos a envidar esforços junto da Câmara, para encontrar um terreno adequado e depois arranjar financiamentos".