Jorge Couto

Arábia Sauditana encruzilhada

O falecimento do rei Abdoulhah ocorreu numa conjuntura particularmente tensa para o reino saudita. A sua imediata substituição pelo herdeiro designado conferiram à transição uma imagem de normalidade institucional. O novo monarca enfrenta múltiplos desafios internos e externos. Vai governar uma sociedade maioritariamente conservadora, mas em que existem franjas antagónicas muito ativas.

Numa sociedade dominada pelo wahhabismo - versão conservadora e puritana do sunismo - existem dois movimentos minoritários que procuram alterar a situação. Os salafistas, extremistas que pregam a "guerra santa" e a eliminação da influência ocidental, e os reformistas, defensores de maior liberdade política e religiosa e da concessão de mais direitos às mulheres. Existe, ainda, o problema da minoria xiita dominante na província oriental (a grande zona petrolífera).

A Arábia Saudita enfrenta ameaças resultantes da expansão da influência do seu arqui-inimigo: o Irão. Ao programa nuclear iraniano, à prevalência dos xiitas no Governo de Bagdad e à revolta da maioria xiita no Bahrain, somou-se, nos finais de janeiro, a ocupação da capital do Iémen, Sana, pelos rebeldes xiitas houthis, colocando em risco a sua fronteira sul.

O reino saudita enfrenta, também, ameaças oriundas do campo sunita. A mais antiga provém da al-Qaeda da Península Arábica (AQAP), cuja bases operacionais se situam no Iémen. O aparecimento do Estado Islâmico (EI), que integra cerca de 2500 combatentes sauditas, constitui uma ameaça à sua fronteira noroeste.

As mudanças operadas pelo rei Salman nos postos chaves políticos e religiosos revelam quatro linhas fundamentais de orientação: congelar a moderada abertura política e religiosa promovida pelo seu antecessor; manter a política de baixo preço do petróleo por razões económicas (inviabilizar os investimentos na exploração do petróleo de xisto, nas energias alternativas e nos automóveis elétricos) e geopolíticas (sufocar financeiramente o Irão e a Rússia, os grandes sustentáculos do regime sírio, e reduzir as receitas do EI) e, finalmente, apostar em políticas sociais destinadas aos setores mais desfavorecidos.

A nomeação do filho preferido para ministro da Defesa e a substituição do conselheiro de Segurança Nacional e do chefe dos serviços secretos revelam uma grande preocupação do novo rei com a segurança interna e as ameaças externas. E não será de excluir que durante a visita do presidente Obama tenham sido afinadas estratégias destinadas a combater o EI e a restabelecer um estado unificado no Iémen. Nalguns meios influentes circulam com insistência informações sobre uma próxima intervenção militar saudita em apoio de líderes da maioria sunita do Iémen.

HISTORIADOR

POR JORGE COUTO