Fernando Teixeira dos Santos

A sobre... peta

O anterior Governo da coligação PSD-PP, face à dificuldade que revelou em reduzir a despesa pública para melhorar o desempenho orçamental do país, optou por nos impor um colossal aumento de impostos. Deste pacote de agravamento fiscal faz parte a aplicação, desde 2013, de uma sobretaxa de 3,5% sobre os rendimentos tributados em IRS. Desde que, em maio de 2014, o relógio do dr. Portas chegou a zero, indicando que terminou o período de aplicação do programa de ajustamento da troika, o Governo passou a adotar uma estratégia de cativação dos eleitores. Certamente a pensar nas eleições no ano seguinte. Já não vale a pena fazer um balanço das muitas declarações de pesar feitas pela coligação a propósito dos sacrifícios suportados pelos portugueses ou das muitas lágrimas de crocodilo que verteu por causa das desigualdades sociais agravadas. Mas hoje lembramos bem a medida que inscreveram no Orçamento de 2015 (o ano das eleições) em que prometem aos portugueses que, se a receita conjunta de IRS e IVA do ano fosse superior ao previsto, teríamos direito a um crédito fiscal, isto é, a uma devolução do montante que nos cobraram com aquela sobretaxa que seria tanto maior quanto maior fosse o excesso da cobrança daqueles impostos face à previsão apresentada no Orçamento.

Nos meses anteriores às eleições, o Governo fez saber aos portugueses que iriam recuperar uma parte significativa da sobretaxa a pagar. Em agosto falava-se de uma devolução de 25% e em setembro a devolução anunciada seria já de 35%. Com os dados divulgados sobre a execução orçamental de outubro ficamos a saber que o mais provável será não haver qualquer devolução.

É surpreendente como de repente aquela devolução se esfumou. É surpreendente como os responsáveis do Governo fogem a dar explicações.

Estamos perante uma situação vergonhosa de manipulação de informação e de expectativas com intuitos eleitorais. Os partidos da coligação iludiram os portugueses ao acenarem com um alívio fiscal virtual. O Dicionário da Língua Portuguesa da Priberam diz-nos que "peta" é uma "história enganosa. = Mentira, Patranha". Estamos de facto perante uma grande peta.

P.S.: O BCE divulgou os resultados dos testes de resistência feitos aos bancos europeus. Soubemos que o Novo Banco precisa de reforçar os seus capitais em 1,4 mil milhões de euros. Foi dito e redito que bastariam os 4,9 mil milhões injetados em 2014. Quem vai pagar este aumento de capital? Será que aqui também nos contaram uma peta, das grandes?

Fernando Teixeira dos Santos