2005

A difícil arte de pôr os artistas a falar

Os adjectivos "bonita, dinâmica e inteligente" constituem, pelos vistos, a trindade necessária para chegar à polivalência de forma suave e tranquila. É o que se pode concluir olhando com atenção para Guta Moura Guedes, 39 anos, que garante que a especialização está em desuso. Para lá do programa que apresenta no cabo, ("Encontros Marcados", na SIC Mulher, aos sábados), Guta integra ainda a administração do Centro Cultural de Belém (CCB) e é uma das fundadoras da associação Experimenta, que, desde 1999, dinamiza a Bienal Experimenta Design, um certame marcante nesta área. A televisão permite-lhe partilhar com os espectadores as pessoas interessantes que vai conhecendo profissionalmente. Pretende sobretudo trazer a público as formas de organização do trabalho artístico.

[Jornal de Notícias] "Encontro marcado" tem vários apresentadores, cada qual com a sua linha de entrevista. Que perspectiva tenta abordar?

[Guta Moura Guedes] As minhas emissões tentam incidir essencialmente sobre cultura contemporânea, que vai desde a área do design, artes plásticas, moda, etc. Mas acaba por ser muito centrado em produção cultural actual, políticas culturais e também em práticas artísticas. É este o leque de cobertura do programa.

Há muita gente por abordar nessa área, em Portugal?

Sem dúvida. Os portugueses, são criadores muito bons. Produzimos em todas as áreas. E uma das áreas onde somos muito reconhecidos no estrangeiro é a da cultura. Temos também excelentes gestores culturais. Há muita gente interessante por cá.

Existe como que uma osmose entre o desempenho no CCB e o do canal SIC Mulher?

Há uma forte ligação entre ambos. São complementares. A televisão é um complemento ao trabalho desenvolvido na associação "Experimenta" e agora no CCB. Tenho o privilégio de cruzar-me com pessoas muito interessantes enquanto faço programação cultural. A televisão permite que eu leve a muita gente, como num acto de partilha, a forma como os entrevistados operam na cultura, na sua carreira.

E aproveita para abordar áreas artísticas normalmente arredadas das entidades onde trabalha?

Em relação aos meus convidados, há sempre o facto de que conheço muito bem o seu trabalho, o seu percurso. O primeiro critério de escolha é o conhecimento profissional que tenho dessa pessoa. Tudo por que devo sentir-me com capacidade para a entrevistar, ou seja, de conseguir levar aos espectadores as coisas que eu julgo serem mais interessantes no entrevistado.

Esse critério de escolha é uma rede de segurança?

É uma rede de segurança, embora eu, perante as câmaras, seja exactamente aquilo que sou fora do estúdio. Não chego lá e visto um personagem.

Qual foi tema mais difícil de levar ao programa?

A conversa com criadores, sejam artistas plásticos ou designers - menos, se calhar, os arquitectos -, é sempre mais difícil do que parece. É mais fácil, por exemplo, conversar com o director de uma grande instituição. Um criador não é necessariamente um bom comunicador, pelo menos no plano televisivo.

Em retrospectiva, qual foi a área ou o assunto que acabou por abordar mais vezes?

Interessa-me muito tentar perceber e tentar veicular como é que cada um de nós organiza o seu método de trabalho.

Por causa do individualismo na criação?

Sim, mas também por perceber que, ao mesmo tempo, os processos entre criadores muitas vezes assemelham-se de forma extraordinária. Interessa-me a estruturação do modo de trabalhar.

Atendendo ao cinzentismo institucional que muitos dizem reconhecer em Portugal, será uma "ousadia" acumular as funções no CCB com as entrevistas na televisão?

Nas décadas de 70 e 80 tivemos uma forte tendência para a especialização. Mas, vivendo nós agora numa época de globalização, com tanto acesso à informação, é normal, sê-lo cada vez mais, que as pessoas assumam um postura polivalente, quando a têm. Nesse caso, devem viver a polivalência de uma forma muito franca.

Ricardo Paz Barroso