Cristina Azevedo

Natal português

Pus-me a pensar que palavras escolheria para caracterizar o Natal em Portugal e cheguei ao seguinte resultado:

Sóbrio - As nossas iluminações, decorações e outras ostentações são francamente comedidas; a profusão de pais natais, renas, bengalas vermelhas e brancas, trenós e LED, milhares de LED a fazer feitios que se veem nas imagens por essa Europa fora, tornaram a palavra "artificial" um eufemismo;

Familiar - Sem que isso seja um luxo; as famílias reúnem-se mas isso não quer dizer que não se vejam regularmente durante todo o ano; não são as migrações do "thanks giving"; é uma alegria que resiste à convivência o que a torna muito mais especial.

Tradicional - Também em modo diferente do revivalismo da moda; naturalmente coze-se o bacalhau, frita-se ou coze-se o polvo, douram-se as filhoses e as rabanadas; porque sim e sem grande alarido.

Cerimonial - Agora que já ninguém verdadeiramente sabe o que é o traje domingueiro, é digna de nota a preocupação no bem parecer à consoada ou, muito visivelmente, no dia de Natal, na missa do meio-dia.

Festivo - O nosso Natal não é sorumbático; entre a ceia e as prendas ainda há muito onde se joga, se faz um teatro, se mandam as crianças ler um poema, ou, muito simplesmente, se contam e recontam as histórias que se construíram e viveram em conjunto.

Nacional - Quero dizer, pouco multicultural; temos cada vez mais turistas e cada vez mais jovens em Erasmus mas as nossas famílias (na cidade ou no campo), nesse dia, ainda só falam português.

Espiritual - O nosso Natal ainda é espiritual; curiosamente muito mais do que na Páscoa onde, inexplicavelmente para um país católico, ganham as férias no Algarve, os portugueses não esquecem o nascimento de Jesus; a visita ao templo, pelos símbolos ou pela participação, não é evitada e muito menos esquecida.

É certo que não somos ricos. O tipo de lojas onde vemos muita gente ainda são as lojas de artigos vistosos mas de baixa qualidade. Mas, mais ricos, mais consumidores. E não é certo que isso seja bom.

Por isso, e por agora, gosto do Natal que se faz com esta gramática!

*Analista Financeira

CRISTINA AZEVEDO*