Tecnologia

Telemóveis nas mãos das crianças podem arruinar noite de Natal, diz especialista

Natacha Cardoso / Global Imagens

A crescente utilização de dispositivos digitais por parte das crianças pode arruinar a noite de Natal. O alerta é da médica Maria Laureano, pedopsiquiatra na Unidade Psiquiátrica Privada de Coimbra, que aconselha o investimento nos "laços afetivos" nesse dia do ano.

A especialista considera que, durante a consoada e o dia de Natal, as famílias devem limitar a utilização de telemóveis e tablets a apenas "um período de tempo" em que esta seja aceitável.

"Se os nossos filhos questionarem o porquê dessas regras devemos sentar-nos com eles e explicar-lhes a importância dos afetos e, com analogias simples, fazê-los entender que o importante é poderem brincar e rir juntos, ao invés de se regozijarem pelo número de likes de um post", afirma a especialista.

De facto, a ligação entre os jovens e os dispositivos tecnológicos torna-se cada vez mais inegável. Em fevereiro de 2017, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) publicou um estudo onde concluía que "desde que nascem, as crianças convivem com dispositivos digitais e veem os pais a utilizá-los diariamente" e que tablets e smartphones são usados para acalmá-las ou distraí-las durante as refeições ou "para premiar o bom comportamento ou desempenho escolar."

Segundo o estudo "Crescendo entre ecrãs", realizado com o contributo científico da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 75% das crianças entre os três e os oito anos sabe ligar os dispositivos eletrónicos e 38% acede à Internet, sobretudo através do tablet.

"As crianças fazem uso do tablet em dois terços dos lares onde há este dispositivo, com ou sem a tutela dos pais e irmãos mais velhos, e quase todas (em 63% dos lares) tem um pessoal", lê-se no relatório que acrescenta ainda que 45% das crianças usa telemóvel e que 18% até tem um aparelho para uso próprio.

Os números são mais assustadores se tivermos em conta a visualização de programas televisivos: "94% das crianças veem televisão todos os dias, em média 1 hora e 41 minutos (um valor que sobe aos fins de semana)".

É por isso que, tendo em conta as estatísticas, a pedopsiquiatra Maria Laureano afirma que não pode haver a "expectativa irrealista" de que esses dispositivos sejam completamente deixados de parte, à mesa e à volta da árvore de Natal. O truque está em substituí-los.

As estratégias "passam por envolvê-los (aos miúdos) ativamente nas tarefas de preparação da noite de Natal de uma forma divertida e lúdica, ajudando na preparação das iguarias de Natal ou ficando responsáveis pela ornamentação dos espaços de convívio", exemplifica, acrescentando que "jogos de tabuleiro" e "atuações artísticas" podem ser bons substitutos dos amigos com ecrãs táteis e Internet.

Até porque, considera, as vivências proporcionadas por um ecrã são "emocionalmente vazias do real contacto com o outro e sensorialmente pobres". "Não têm cheiro, paladar, não estimulam as terminações nervosas da pele como um abraço apertado, por exemplo dos primos quando se encontram", remata, salientando a importância da criação de "memórias" e "histórias biográficas", durante o Natal e outras épocas festivas.

Rita Salcedas