Domingos de Andrade

José das Dornas

Eram uma irritação para o Sr. Reitor, de Júlio Dinis, as esfolhadas que por aqueles tempos o José das Dornas dava e como elas acabavam. Homens e mulheres. Crianças e velhos. Amos e criados. Uma noite em festança de abraços e beijos. Acaba-me com essas folganças, José, isso é a perdição de muita gente. Mas o apego do lavrador era grande. Estava-lhe na massa do sangue.

E pode Marcelo Rebelo de Sousa ser diferente do que é? Comentador-professor-presidente? Deixar de ser pessoa como as pessoas? Olhar de manhã e questionar: telemóvel meu, há homem mais selfie do que eu?

Marcelo respondeu na passagem dos dois anos da tomada de posse. Não esperem do presidente uma atuação diferente daquela que tem tido até aqui. Programa de governo de Belém. Com doses de afeto. Vai estar atento. E a fazer pedidos aos partidos, agora que Rui Rio mostra confiança na aproximação ao PS e que Assunção Cristas parece correr sozinha na pista da direita, mas que é a pista do pulsar do povo.

O chefe de Estado quer efeitos visíveis na vida das pessoas do diálogo entre o maior número de partidos e parceiros sociais. Quer a defesa do país no próximo quadro comunitário de apoio. Quer prevenção e resposta a calamidades públicas. E quer correção das desigualdades entre pessoas e comunidades, a que se junta a descentralização com reordenamento do território.

A um homem não se lhe pode despir a pele que usou toda a vida. E Marcelo tem sido, nestes dois anos, exatamente o que é. O que sempre foi. Atento, culto, sem perder pitada do que se passa no país, na sociedade, na economia e na política, hiperativo, próximo das gentes, usando e abusando da ponte dos afetos, que cultiva como imagem de marca.

Mas o país político mudou. Sem Marcelo querer mudar muito. E é nessa hiperatividade constante, no comentário recorrente para o palco mediático sem distinção de género ou feitio, que o presidente corre o risco de se transformar em porta-voz dos vários poderes, deixando de ser o farol que tem conseguido conciliar o país consigo próprio.

É que há uma diferença, como o próprio justificou, entre discurso e ação - frieza na análise, e afetos na proximidade. Só que nem sempre, nele, essa frieza se traduz nalguma distância dos corredores do Parlamento e dos jogos partidários.

Apesar de genuíno, o rolo compressor dos afetos comporta riscos de futuro. Não com alguém com os valores éticos de Marcelo. Mas como modo de fazer política, abre caminho a discursos demagógicos. Porque o afeto não é uma categoria política. E colocar o afeto ao nível de categoria política é mais perigoso do que parece.

Mesmo que o José das Dornas tenha razão. E que os beijos e abraços, quanto mais às claras, menos perigosos são.

*DIRETOR-EXECUTIVO

Domingos de Andrade *