João Gonçalves

Sócrates livre deles

A Direcção do PS montou, em menos de 72 horas, uma farsa medíocre para se livrar de um seu antigo secretário-geral e primeiro-ministro. Costa foi para o Canadá e deixou instruções. Não queria fantasmas a pairar no seu próximo congresso albanês. Em 2014 era demasiado cedo. Sócrates acabara de ser detido para interrogatório e fora-lhe imposta a medida de coacção mais pesada. Afinal, eles eram todos "socráticos". Foram eles, e não outros, que encheram o Largo do Rato, dez anos antes, quando Sócrates se apresentou contra João Soares e Manuel Alegre. Santos Silva estava com Alegre. Mas Sócrates não prescindiu dele mal formou Governo. Redigiram-lhe sucessivas moções nos sucessivos congressos que ele ganhou. Costa exigiu ser ministro de tudo para trocar o PE por Lisboa. Sócrates não lhe negou esse robusto segundo lugar até ele querer a Câmara de Lisboa. Estiveram todos com o "Zé", mesmo quando, em 2011, o "Zé" se preparava para perder para Passos. A seguir, estiveram todos, bem mais que o "Zé", contra Seguro. Na noite "europeia" em que Costa decidiu esventrar politicamente o "poucochinho" Seguro, Sócrates ainda apareceu na televisão a defendê-lo enquanto líder que não tinha perdido. Ingenuamente, o homem pensava que, para além de camaradas de partido e de "linha", eles eram amigos dele. E vá de alinhar, longe e perto, com eles, praticamente os mesmos dos seus dois governos. Em quatro anos penosos, Sócrates tentou que eles alinhassem consigo na narrativa política que apresentou à Justiça. Costa, que já o tinha deixado em Évora entregue à sua (dele, Sócrates) "verdade", engendrou com os seus mais ensebados capatazes o golpe sujo dos "neo-envergonhados". Neste jornal, Sócrates, num post scriptum a um artigo de opinião, pôs termo àquilo a que chamou de "embaraço mútuo", desfiliando-se do partido para o qual conseguiu a única maioria absoluta da sua história. Usou do dever e do direito de defender a sua dignidade pessoal e, sobretudo, política. Não foi o partido que o expulsou. Sócrates é que expulsou a actual Direcção do partido. O que faz toda a diferença, independentemente do que subjaz ao "embaraço" e que será dirimido noutra instância. Combati leal e politicamente Sócrates. Está em livro, aliás. E nunca fui seu amigo, pelo que estou à vontade. Possui qualidades de combatividade política que aprecio. É, agora, um animal político ferido que reagiu com altivez solitária à canalhice envergonhada dos seus "próximos". Deram-lhe liberdade de acção. Habituem-se.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

JURISTA

JOÃO GONÇALVES