Numa semana em que a discussão sobre a eutanásia deixou em brasa o ambiente político, ficamos a saber que as verbas para a construção de um novo serviço de pediatria no Hospital de S. João continuam congeladas. Isto depois de o Ministério da Saúde ter garantido, no mês passado, que os trabalhos arrancariam em maio. Para um país que se debate com uma crise na natalidade, estamos a tratar as nossas crianças da pior maneira. Se pensarmos que, na maior unidade de saúde do Norte de Portugal, as crianças podem fazer tratamentos de quimioterapia nos corredores, está bem explicada a indignação dos pais que, nas páginas do "Jornal de Notícias", denunciaram uma situação que envergonha o país, o Governo, os deputados e todos os responsáveis políticos.
A verdade é que o problema continua enclausurado em questões técnicas, enredado numa imensa teia burocrática, sufocado em cativações. Ontem mesmo, na Assembleia da República, o presidente do Conselho de Administração do Hospital de S. João, António Oliveira e Silva, explicou aos deputados que a situação não sofreu alterações desde o início do processo. Nem este responsável sabe bem porquê, mas argumenta que o dinheiro poderá estar bloqueado em virtude de o Governo entender não estar na posse de toda a informação. Mesmo tendo presente que o controlo dos dinheiros públicos é fundamental, e até uma mudança positiva em relação ao que acontecia com executivos anteriores, nada justifica este bloqueio economicista a uma situação tão sensível.
Mas nem todos pensamos assim, infelizmente. Adalberto Campos Fernandes, o arquiteto da Saúde de um ministério que, pelo menos no caso em apreço, tem primado pela inércia, apressou-se, ao fim do dia, a justificar que "o dinheiro público é demasiado importante para ser gerido de forma intempestiva". Concordo, mas como, ao contrário de Mário Centeno, não quero ser Adalberto, acrescento que o facto de a decisão estar tomada é pouco ou nada e, num país pródigo em regimes de exceção, acredito que não faltariam instrumentos para agilizar a resolução desta vergonhosa realidade de ver crianças a ser tratadas nos corredores dos hospitais. Como se não lhes chegasse serem vítimas da doença, de sofrerem como ninguém merece na idade de ser feliz, ainda tinham de levar com as cativações cegas do Ministério das Finanças. E depois, eleição atrás de eleição, lá assistimos aos lamentos face à abstenção galopante e ao alheamento dos jovens da política. Pudera, a tratá-los assim.
* EDITOR-EXECUTIVO-ADJUNTO