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* A história das coisas * Pentes primitivos em osso

* A história das coisas * Pentes primitivos em osso

Durante umas escavações arqueológicas efectuadas na Escandinávia, descobriu-se, entre outros objectos do homem pré-histórico, um pente. O exemplar, feito de osso, tem 10 000 anos de antiguidade. E prova que terá sido o primeiro pente do qual o Homem se valeu para colocar ordem na densa cabeleira que o caracterizava.

Na altura, quando o arqueólogo responsável pela jazida o descobriu, exclamou surpreendido: "Senhor, como é antiga a coqueteria humana...!" Mas não se tratava apenas de coqueteria. O homem do Neolítico necessitava do pente como objecto funcional.

Os primeiros pentes feitos eram de madeira, de osso ou de corno. Na Idade dos Metais, produziam-se em cobre, bronze e ferro. Eram mais altos do que largos, com uma distribuição uniforme dos dentes ao longo da meia-lua, que constituía a sua base.

Em túmulos egípcios, anteriores ao ano de 1500 antes de Cristo, bem

como em sepulturas babilónicas e assírias, o pente sempre foi um dos utensílios que não podiam faltar no enxoval do defunto. Também a Grécia clássica os utilizou. Conta Heródoto, historiador grego do século V antes de Cristo, que o espião enviado pelo rei persa, nas vésperas da Batalha das Termópilas, surpreendeu os gregos a prepararem-se para o combate mediante um elaborado penteado, para o qual utilizavam pentes de marfim. Em Roma, por exemplo, uma cabeça despenteada erasinal de miséria ou de desgosto. O pente simbolizava, assim, distinção e bom gosto.

Não é de surpreender, portanto, que tivessem dido os Romanos a inventar o pente de bolso, lavrado nos cabos de osso de uma navalha dobrável, também um invento seu. Foi também na Roma do século I que se impôs o costume de cortar o cabelo. Para tal era necessária a ajuda de um tosquiador ou cabeleireiro que, armado de tesoura, de navalha e de pente, satisfazia a numerosa clientela.

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Ir ao cabeleireiro era, à época,um costume popular e enraizado. Os pentes baratos faziam-se de madeira de buxo ou de osso, curtos, com uma fila dupla de dentes, para desalojar os hóspedes não desejados. E o seu preço, tal como o do pão ou o do circo, era regulado pelo Estado.

Os pentes costumavam ser gravados, belamente ornamentados com motivos que faziam alusão às circunstâncias da vida do seu proprietário. Por esses costumes chegou-se a saber que simbologia usaram os primeiros cristãos: pombas, barquinhos, palmeiras, peixes, raminhos de oliveira. Também se esculpia neles nomes de pessoas ou pequenos dizeres, como um gravado num pente de marfim que dizia: "Sê-me fiel, nunca me esqueças".

Houve pentes de prata e de ouro, dedicados às divindades pagãs, cujos templos tinham um cabeleireiro para cuidar das suas imagens, as quais, por terem perucas, exigiam os seus serviços. No templo de Argos, no Peloponeso, a deusa Palas tinha mesmo um jogo de pentes de ouro e Vénus uma extensa colecção oferecida por um devoto, em pagamento de favores recebidos nas difíceis lides do amor. Também no culto cristão o pente adquiriu um significado litúrgico, que durou até ao século XVII: antes de subir os degraus do altar, o sacerdote era penteado pelo diácono com um pente ornamentado, expressamente reservado para esse fim. Na Idade Média, o papa Bonifácio V oferecia pentes como prova de gratidão e afecto.

Nessa era, os pentes proliferaram por todo o lado. Pentes rústicos, de madeira ou osso sem aparar, mas também de marfim, ou pentes elaborados artisticamente com incrustações de ouro e de vidro, que andavam nas mãos dos cortesãos. Havia aindapentes renascentistas, com figurinhas de cupidos em actividades amorosas. Pentes de chumbo, para o cabelo ruivo e pentes até de pão, como o oferecido ao seu barbeiro por um pasteleiro de Burgos, no tempo de Cervantes.

O pente moderno continua a servir-se dos mesmos materiais. Mas há que recordar os pentes elaborados nos Estados Unidos, em 1870. Eram de plástico, goma-laca ou concha de tartaruga. De resto, como dizia um humorista do século passado, "um pente será sempre um pente, uma coisa para pessoas com cabeça". Sempre que nela exista cabelo.

in "História das Coisas" por Pancracio Céldran

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