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A hipnose de Scolari

"Como você consegue aturar o Felipão?". Esta é a primeira pergunta colocada a Regina Brandão quando participa em qualquer programa de televisão brasileiro. "Eu fico doida quando ouço isso", argumenta a mais conhecida e prestigiada psicóloga desportiva do país irmão. "Todos o vêem como um sargentão...", lamenta.

Em Portugal, o seu nome já suscita curiosidade. O motivo é simples: trabalha com Luiz Felipe Scolari desde 1995 com o objectivo de ajudar os seus atletas a optimizar a capacidade emocional e minorar aquilo a que apelida de "crenças limitativas".

Em conversa com o JN, mostrou quem é. Disse também quem é Scolari. Falou também dos dramas e das alegrias da comitiva da selecção nacional no Euro 2004 já que conversava diariamente com o "sargentão" antes, durante e após a competição. Revelou também um dos métodos que utiliza para ajudar os seus pacientes: a hipnose erikssoniana.

[Jornal de Notícias] Quem é a Regina Brandão?

[Regina Brandão] O meu sonho de moça era ser jogadora de voleibol. Mas tenho apenas 1,55 metros, não dava... (risos) Mas quis sempre estar ligada ao desporto. Isso acabou acontecendo pela via da psicologia. Trabalhei na área do voleibol e depois conheci o Felipão que me levou para o futebol.

Nas páginas do livro de Scolari, relativo ao último Mundial, você é referenciada inúmeras vezes. No Euro 2004, sabe-se também que esteve em permanente contacto com o seleccionador. Porquê?

Eu e ele temos uma grande empatia. No início de cada projecto seu, eu ajudo-o a traçar o perfil psicológico dos jogadores que vai treinar. Depois, em conjunto, vamos conversando sobre o resultado das análises. Nas competições, falamos diariamente sobre aquilo que achamos conveniente.

Quais são os métodos que lhe permitem granjear tanto sucesso?

O meu método preferido é a hipnose erikssoniana (expressão oriunda de Milton Eriksson). Mas não é aquela hipnose em que a pessoa fica inconsciente, tipo comendo cebola que parece maçã. Na minha técnica, o atleta relaxa, respira e se concentra num nível profundo, devidamente direccionado. O tratamento permite mudar determinados comportamentos e modificar algumas crenças limitantes. Existe crença limitante em todas as pessoas do mundo, especialmente nos desportistas de alta competição. De que se trata? O problema acontece quando determinado indivíduo diz para si próprio que não consegue fazer algo que ainda nem sequer começou. Já ajudei muita gente com essa terapia porque há coisas que entram directamente no subconsciente.

Scolari tem muitas crenças limitantes?

(risos) Eu nunca o tratei, apenas o ajudei nos grupos que ia treinando.

E em jogadores portugueses?

Houve diálogo, muito diálogo. Ainda não tenho qualquer paciente português. O vosso país fica muito longe...

No Euro 2004, qual foi o momento de maior tensão do seleccionador?

Houve vários momentos. No primeiro jogo, que se disputava no Estádio do Dragão, senti que o Felipão que eu conheço não estava presente. Estava demasiado ansioso, havia muito nervosismo, a pressão era enorme... Outro momento de grande tensão aconteceu antes do jogo com a Espanha porque era um encontro de "bota fora".

O facto do primeiro jogo se disputar no recinto do F.C. Porto, clube com que Scolari teve diversos problemas, poderá ter acentuado o nervosismo?

Pode ser, talvez tenha ficado ainda mais ansioso com esse facto. Como todos sabem, havia o medo de que ele e os jogadores pudessem ser mal recebidos. Mas as coisas pioraram muito após o final da partida. Aí, ele ficou muito abatido, triste mesmo, e eu tive de o abanar. Cadê o lutador que eu conheço? A partir daí, descontraiu e estabelecemos uma estratégia psicológica para o próximo jogo, que passava por tornar os atletas mais tranquilos, sem colocar a culpa da derrota em cima de ninguém. E deu certo.

Havia sempre uma estratégia psicológica antes de cada jogo?

Sim, sempre. Falávamos como o grupo deveria interiorizar o próximo jogo, discutir detalhes de jogadores, promover um diálogo positivo. Era género: "Vamos deixá-los brincar, ficar felizes, mas só até à noite". Ele tinha, por seu lado, a missão de enviar mensagens que achava serem importantes e o objectivo de entusiasmar os portugueses. O que Felipão fez foi incrível. Conseguiu mobilizar um país inteiro através das suas palavras.

Apesar de tudo, como explica o facto de Scolari ser considerado uma pessoa polémica em Portugal?

Ele está habituado a isso. Scolari diz que não pode agradar a todos. Faz as suas escolhas e ponto final. Depois mostra resultados e isso é que é importante porque cala as críticas agressivas. Mas atenção porque a sua função não é eliminar os inimigos, mas sim aprender a viver com eles. Essa é a sua grande virtude. Mesmo depois da derrota com a Grécia, na final, penso que o povo português lhe agradeceu na mesma. Colocou o país numa posição onde nunca tinha estado. Ele também é fantástico com os jogadores. Quando vê que alguém está batido, não descansa enquanto não esclarecer a situação, seja ela qual for. No fundo, é como um ovo: casca por fora, gelatina por dentro. Já pensaram a razão de nenhum jogador dizer mal depois de trabalhar com ele?

O menino Kaká de São Paulo

A psicóloga conheceu Kaká, actual estrela do AC Milan, quando o jogador tinha apenas 13 anos (actuava, na altura, no São Paulo). Hoje, continuam a ser amigos.

"Durões" são exemplo a seguir

Regina defendeu, na tese de mestrado, a mentalidade de atletas como Jorge Costa. "Os durões, verdadeiros disciplinadores, geram mais resultados do que os bonzinhos".

50 anos São Paulo (Brasil)

Psicóloga, doutorada em Ciências do Desporto na Unicamp e pós-graduação em Psicologia do Desporto no Instituto de Cultura Física em Cuba, já assumiu funções em vários clubes brasileiros (São Paulo e Santos são apenas alguns exemplos). O seu primeiro grande sucesso ocorreu quando trabalhou com a selecção brasileira de voleibol, nos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992, equipa que acabou por conquistar a medalha de ouro. José Roberto Guimarães, técnico dessa selecção, foi o primeiro treinador a apostar no seu trabalho. Três anos mais tarde, o responsável apresentou Regina a Scolari. A partir daí, nunca mais se largaram. Uma dupla de sucesso que ajudou o Brasil a alcançar o título mundial e Portugal a sagrar-se vice-campeão da Europa. Além do futebol e do voleibol, trabalha também em outras modalidades: ténis (é a psicóloga de Gustavo Kuerten), natação, golfe e remo.

Portugueses reservados na religião

Curiosamente, uma das grandes diferenças culturais encontradas por Scolari, entre Brasil e Portugal, reside na religião. "Aqui, os atletas escondem-se para rezar".

Antes do início do Campeonato da Europa - e a pedido de Luiz Felipe Scolari -, Regina Brandão quis ouvir, individualmente, os 23 jogadores convocados para a prova. Deslocou-se, propositadamente, a Lisboa para o efeito e quase todos os jogadores aceitaram reunir-se consigo. A única excepção chamou-se Luís Figo. Já sabe qual foi o motivo da recusa do galáctico? A resposta saiu célere, sem hesitações. "Não sei nem quero saber. Só quis ajudar... Aliás, só falou comigo quem quis. Ninguém foi obrigado a estar comigo. O facto do Figo ser a bandeira da selecção não quer dizer nada. Optou por não falar e pronto! O tema não gerou qualquer polémica", revelou, mostrando-se incomodada com a questão. Por isso, quis mudar rapidamente de assunto. "A conversa com os restantes atletas correu muito bem e até me surpreendeu. Mostraram disponibilidade para abordar todos os pontos de vista da sua vida. O meu único objectivo passou por conhecê-los melhor e dar a possibilidade de eles também se conhecerem melhor. É tão simples quanto isso", sublinhou. Rui Costa assumiu-se como uma referência devido ao facto do AC Milan possuir, desde há vários anos, um psicólogo. "Na minha opinião, é uma prática que ajuda todos os profissionais do clube. Muitos problemas, que parecem graves, são ultrapassados com relativa facilidade".

Após a polémica gerada em redor da naturalização de Deco, outra poderá surgir dentro de poucos meses. A hipótese de Derlei representar a selecção nacional poderá provocar nova e acesa discussão entre os portugueses. Até porque Luiz Felipe Scolari e o director Carlos Godinho já assumiram, publicamente, que se trata de uma probabilidade com fortes hipóteses de se concretizar. Regina Brandão não vê razão para que haja conflitos de nacionalidades, mas compreende que o português "que tem um país com quase 900 anos de história" apresente uma mentalidade algo fechada relativamente aquilo que é estrangeiro. "Eu vejo isso aqui em São Paulo que tem uma enorme comunidade de portugueses. Apesar de muitos estarem cá há décadas, eles sempre dizem que são portugueses. É uma questão cultural interessante", acentua. Apesar de tudo, considera exagerado a importância dada à questão das naturalizações. "Porquê tanta polémica? O Deco, por exemplo, é mais português do que brasileiro. Ele saiu daqui quando tinha 17 anos! Se formos por aí, nem se deveria olhar para a selecção francesa. Neste aspecto, Scolari tem razão quando diz que os portugueses deviam olhar para o resto do mundo".

No campeonato luso, há somente um atleta que já foi sujeito a uma intensa terapia por parte de Regina Brandão. Luís Fabiano, do F. C. Porto, era há vários meses atrás um jogador intragável para a sua própria equipa, para o adversário e para o árbitro. Rara era a partida em que não se metia em "confusões", ora com agressões ora com a mostragem de cartões vermelhos directos. "Felizmente, ele está mais calmo. Através de induções verbais, consegui que ele se tornasse num atleta menos rebelde e que não se desorientasse na primeira vez em que as coisas não lhe corriam bem. A sua agressividade foi transportada para o campo no bom sentido devido à sua inteligência em compreender o que estava errado nele", sublinhou. Graças a isso, Fabiano (conhecido como o "Fabuloso) já aconselhou vários colegas a conversar com Regina Brandão. De resto, o brasileiro poderá revê-la em Novembro, período em que a psicóloga estará em Portugal para participar num congresso de psicologia. O evento decorrerá na Madeira, mas haverá decerto uma "escala" no Porto.

Porto é a cidade preferida

Regina Brandão adora Portugal e, especialmente, a cidade do Porto. "Adoraria viver lá. É um sítio encantador, assim como o Peso da Régua".