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Aldeia mais francesa do país está a perder o sotaque

Aldeia mais francesa do país está a perder o sotaque

Quem no domingo passado se deslocou à freguesia de Queiriga, no concelho de Vila Nova de Paiva, terá ficado com a sensação de que a aldeia continua a ser a mais francesa de Portugal. Mas as coisas não são o que parecem. Os emigrantes, em gozo de férias, continuam a contribuir para triplicar a população nas festas anuais da freguesia, mas depois partem para a praia, por períodos longos, e só regressam para as despedidas.

"Isto está a mudar. Os nossos emigrantes continuam fiéis às suas raízes, mas vão dando sinais que nos preocupam. Basta olharmos para os letreiros de "venda" colocados em muitas casas da terra", alerta Adolfo Marques, presidente da Junta de Freguesia da Queiriga.

A provar o desalento, o autarca, defensor da criação do Museu do Emigrante - designação redutora para um conceito amplo de repositório de memórias da emigração que a partir dos anos 60 desertificou a terra -, admite que o projecto "está em banho-maria".

"Não desisti da ideia. Mas confesso que abrandei depois de alguns contactos. Não vejo grande interesse da população em fazer alguma coisa com futuro", confessa Adolfo Marques.

A própria maneira de estar dos emigrantes está a alterar-se. "Nos primeiros anos de emigração assistiu-se a alguns sinais de novo riquismo da parte de alguns. Uma situação natural que simbolizava o sucesso conquistado. Agora não. Os nossos conterrâneos chegam, ficam nas suas casas ou vão de férias, e quase não se vêem. A maioria, ligados à segunda e terceira geração, revelam maior serenidade e cultura", explica. Apontados muitas vezes, com uma ponta de critica pejorativa, de falar francês em detrimento da língua materna, os cidadãos de Queiriga que trabalham em França são hoje vistos com outros olhos.

"Há uma preocupação em falar português. Mas temos de compreender que muitos filhos e netos dos emigrantes da primeira geração nasceram em França. E por maior que seja a intenção dos pais em legar-lhes a herança da língua materna, é em francês que se exprimem. É inevitável e compreensível", explica Adolfo Marques.

As casas construídas há anos a partir de modelos importados continuam a mostrar uma Queiriga internacionalizada. Os carros de matrícula francesa que nesta altura circulam nas ruas estreitas da freguesia também. Mas basta falar com alguns para se perceber que a emigração trocou as voltas a muitos queiriguenses.

"Estou em Pau há 40 anos. Os meus três filhos estão todos lá. Fui para França muito novo e gosto daquilo. Não tenciono voltar", confessa, ao JN, José Marques Ferreira, enquanto dá um jeito na caixa do correio da casa que mantém em Queiriga.

Mas também não faltam sinais de esperança. José Carlos nasceu em França, onde trabalha a fazer canalizações e a instalar ar condicionado. Mas espera voltar e fixar-se na terra da família. Venho duas vezes por ano: na Páscoa e em Agosto. Sinto prazer em pegar na moto todo-o-terreno e andar pelas nossas matas. Não perco a ideia de vir para aqui".

"O museu ou centro de estudos na emigração que gostaria de ver criado e instalado numa casa tradicional da Queiriga, serviria para consolidar o amor dos nossos emigrantes pelas suas raízes. Sobretudo os mais novos. Estou nisso empenhado juntamente com a Câmara de Vila Nova de Paiva. Apesar de saber que é um projecto complexo, vou tentar, até Dezembro, definir o que se pretende. Há memórias a salvaguardar", remata Adolfo Marques.

700

habitantes é a população normal da freguesia da Queiriga, no concelho de Vila Nova de Paiva. Um número que no mês de Agosto triplica, devido à chegada dos emigrantes, a maioria a trabalhar nas cidades francesas de Pau, Orsay e Limours. 60 década a queda na procura do volfrâmio, a desactivação das minas onde trabalhavam e uma agricultura de subsistência levaram muitos queiriguenses a emigrar de assalto para França.Quando regressavam, em férias, o sotaque frencês fazia a diferença.

Estou no estabelecimento há pouco tempo. Mas não há dúvida que a clientela aumenta nos meses de Verão, particularmente em Agosto. Um Museu ao Emigrante seria uma boa ideia para Queiriga".

Estou em França desde 1965. Trabalho em Paris. Não rejeito a possibilidade de voltar a Queiriga, a minha terra, quado me reformar. Para já, contento-me em passar aqui três semanas por ano. É bom voltar às raizes".

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