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Cantar fado sem melancolia

Cantar fado sem melancolia

No início, a relutância de João Pedro em aceitar cantar numa festa, em Torres Vedras, a sua terra, não fazia prever que, dali a pouco tempo, nasceria um fadista. Tinha apenas 11 anos quando começou a cantar. Aos 13, regressou de Itália com o primeiro lugar do concurso "Bravo, Bravíssimo". Amália terá pressentido, então, o talento precoce do pequeno João.

Aos 21 anos, com o tempo repartido entre dois universos tão díspares como o fado e o curso de Engenharia Química, João Pedro lança, agora, o seu segundo CD, "Fado sentido", disco amadurecido pelos sete anos que o separam do primeiro, "Lenda da fonte".

João Pedro garante que este segundo álbum foi "mais bem pensado", não tanto a nível da técnica vocal, mas antes com a preocupação de "interpretar a letra dos fados o melhor possível. Para quem canta fado, a voz só vem depois, primeiro, está a interpretação". E é aí que as águas se dividem e tudo se decide. "Quis marcar a minha presença nos fados que cantei", assume João Pedro.

E, por isso mesmo, cantou fado à sua maneira. Cantou "com sentimento. A minha voz foi muito levada pela música", explica. E desmistifica o género "Não é preciso ser melancólico ou triste para ouvir fado, porque acredito que todas as pessoas têm um lado em que conseguem percebê-lo".

"Fado sentido" implicou uma "pesquisa muito grande", que veio a resultar num repertório de "fados muito antigos, todos repescados". João Pedro deu uns toques na orquestração e fez "uns arranjos", mas não se atreveu a ir mais além. Escrever as letras dos fados é "um bocado mais complicado", confessa, com um sorriso. É "o dobro do risco", continua. "De momento, não me vejo como compositor. Talvez um dia".

Entretanto, João Pedro vai gerindo o tempo entre a Engenharia Química e o fado, mundos que nem sempre se entenderam no íntimo do jovem fadista. "São dois universos completamente antagónicos", onde convivem, agora definitivamente em paz, "um lado científico e um lado sentimental".

O que surgiu primeiro? João Pedro não hesita em responder "O fado. Fui sempre amadurecendo com ele. O curso veio depois, por arrasto. Nunca quis ter só o fado. Quis as duas coisas para ter um porto seguro".

Fala do futuro com alguma segurança, mas, sobretudo, com muita tranquilidade. "O que for há-de ser". Para já, a grande certeza que tem é a de que o fado é para continuar. E a engenharia também. "Vou dedicar-me inteiramente ao fado, mas também vou continuar a ter as minhas aulas e a frequentar os meus laboratórios".

Cauteloso, e sem traçar grandes planos a curto prazo, João diz apenas que, agora, quer "ver o que se pode fazer com este novo álbum". Depois ver-se-á o que se pode fazer a seguir.

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