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Moradores de Alvalade contra "Morteshopping"

Moradores de Alvalade contra "Morteshopping"

Anotícia da intenção da Servilusa de instalar um complexo funerário em Alvalade - nas antigas instalações das Páginas Amarelas, na Rua Conde Ficalho, números 2 e 4, e Francisco Franco número 1 - está a deixar revoltados os moradores da zona, que não querem conviver com um "shopping da morte" no seu bairro. A indignação pelo local escolhido levou à constituição de uma comisssão de moradores, que lançou uma petição na internet e tem estado a alertar as entidades públicas para um projecto que considera "inaceitável" em qualquer zona residencial da cidade.

Em causa está a transformação de um edifício já existente numa agência funerária, com um complexo com nove salas de velamento e uma área técnica de preparação de corpos que irá funcionar 24 horas por dia. No edifício, com cerca de três mil metros quadrados, haverá ainda uma cafetaria, uma florista, uma loja de artigos religiosos, um quiosque de venda de jornais e revistas e um espaço multimedia, com acesso à Internet, destinado às crianças. A Servilusa garante que o projecto inclui estacionamento para 30 viaturas.

Os moradores souberam do projecto pelos jornais e ficaram "chocados" com a notícia. Marta Pedro, porta-voz da comissão, entende que a localização deste equipamento numa zona residencial "não é razoável" e que "não há sustentação urbanística para o projecto". "Isto é um bairro residencial. Os prédios não têm garagem e os moradores não têm lugar para pôr os carros. Como é que vai ser com o movimento dos velórios?", questiona, indignada.

Além do movimento de carros e de pessoas, os moradores lembram que, a menos de 200 metros, há uma escola, da Fundação Adolfo Vieira de Brito, uma creche, um parque infantil e uma casa de repouso para a terceira idade, pelo que consideram que "a localização não é adequada".

O projecto também não agrada ao presidente da Junta de Freguesia de São João de Brito, Joaquim Fernandes Marques, para quem o local "não tem as mínimas condições" para receber o equipamento.

Ao JN, o autarca disse ter reunido com um dos directores da empresa, a quem terá dito que "o projecto é muito interessante, mas se for construído em locais próprios, fora das zonas residenciais". "Se o bom-senso prevalecer, é evidente que nada disto se vai poder instalar ali", defende Fernandes Marques.

Os moradores garantem que, apenas num fim-de-semana, recolheram cerca de 1500 assinaturas contra o que chamam de "MorteShopping". Hoje, serão mais de duas mil. Têm enviado cartas de protesto aos vereadores e ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa, a quem pedem que travem a instalação do equipamento no bairro. Têm uma audiência pedida à vereadora do Urbanismo e, para esta semana, estão a preparar acções de protesto.

A principal dúvida dos moradores relativamente à instalação da megafunerária em Alvalade reside na questão do licenciamento. A Servilusa garante que, ao abrigo da legislação nacional, "os locais de culto não necessitam de licenciamento específico" e que a actividade da agência está autorizada pela Direcção Geral do Comércio e da Concorrência. A comprová-lo, enviou ao JN um documento, emitido em nome de SCI, Service Corporation International (Portugal), com data de 1 de Outubro de 2004, que autoriza o exercício da actividade no edifício em questão. No que se refere às obras de adaptação do prédio, a empresa garante que as alterações em causa foram apresentadas à Câmara e que não necessitam de licenciamento. A sustentá-lo, enviou um documento - emitido pela Direcção Municipal de Gestão Urbanística, em nome do Banco Comercial Português, em Junho deste ano - onde se lê que a obra está "dispensada de licenciamento".

Contactada pelo JN, fonte do gabinete da Presidência da CML respondeu que "não há qualquer pedido de licencianento de obras por parte da Servilusa para as instalações em questão" e que "o projecto não foi formalmente apresentado à autarquia". Desconhece também qualquer "mudança de utilização" do edifício.