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O Recolhimento do Ferro nas Escadas do Codeçal

O Recolhimento do Ferro nas Escadas do Codeçal

Eis um padrão do típico arcaísmo portuense: o Codeçal. Trata-se, com efeito, de um topónimo muito antigo, talvez anterior, segundo revelação de Cunha e Freitas, à centúria de quatrocentos. Pode haver outros sítios mais pitorescos naquilo que se convencionou chamar o "Porto Antigo". Mas não deve existir outro mais repousado e mais evocativo.

Registos de azulejos setecentistas, pátios escondidos recamados de cerâmica azul, figuras decorativas da fidalguia de setecentos, apontamentos graciosos de um mundo que passou. O bairro, se assim se lhe pode chamar, assemelha-se a um eirado debruçado sobre o casario da Lada e a toalha líquida do Douro, um delicioso cantinho impregnado de melancolia e pitoresco.

Quem não ouviu já falar do Recolhimento do Ferro e da antiquíssima Capela de Nossa Senhora do Ferro, que existiram numa reentrância da Rua Escura, à entrada da antiga Viela dos Gatos e que hoje, muito modificada, se chama Travessa de São Sebastião ? Já lá vai tudo, capela e recolhimento.

Nos começos do século XVIII pensou em remodelar-se e melhorar-se as instalações da Rua Escura. Mas a ideia não foi por diante. Em frente, na rua de S. Sebastião, ficava o aljube e das janelas deste presídio era possível devassar tudo o que se passava no interior do antigo recolhimento. Decidiu-se, então, pela construção de novas instalações em sítio adequado. O edifício pa-ra a instalação do novo recolhimento seria construído no Codessal (era esta a grafia antiga) em terrenos que uma tal Josefa Maria doara gratuitamente, por escritura de 17 de Março de 1729, " às recolhidas e convertidas do Recolhimento de Nossa Senhora do Ferro".

Algumas condições foram impostas pela doadora. Uma delas era a de que o Recolhimento tomasse por padroeira "a grande exemplar da castidade" Santa Maria Madalena. E porquê? Porque na instituição deviam ser recebidas "todas aquelas mulheres que arrependidas da má vida e costumes dissolutos do mundo, se quisessem naquele Recolhimento" que era destinado, sobretudo, "às mulheres de idade de 15 até 30 anos e bem parecidas e que por tais (serem) servissem de maior ruína das almas..." A instituição, depois da transferência da Rua escura para o Codeçal, passou a ser conhecida pela designação de Recolhimento de Nossa Senhora do Patrocínio e Santa Maria Madalena. Mas em alguns documentos e livros também é designada por Recolhimento do Patrocínio da Mãe de Deus. Mas por regra era conhecida simplesmente por Recolhimento do Ferro, como o era quando estava na Rua Escura.

A construção da igreja e do recolhimento naquele lugar airoso e alegre, debruçado sobre o rio, não foi de todo pacífica.

As obras começaram antes de 1752. Inicialmente, a ideia era a de construir a igreja e o edifício do recolhimento no sentido de um paredão que se ergueu voltado para o rio. Mas os autores do projecto e as próprias recolhidas entenderam, algum tempo depois, que seria melhor construir o templo e as novas instalações à face da rua, que é como quem diz, das escadas. Esta medida acarretou outros inconvenientes, dos quais o mais complicado foi levantado por um alferes da Guarnição do Porto que morava do outro lado da rua e se queixou de que a obra lhe tirava as vistas sobre o rio. Este óbice, porém, acabaria por ser resolvido e a obra prosseguiu.

Em 21 de Agosto de 1764, os mestres pedreiros José da Costa e António da Silva assumiram a obrigação de fazerem as obras da portaria onde deviam ficar a roda e a grade através da qual as recolhidas podiam falar com as pessoas que as procurassem. Esta empreitada foi ajustada àqueles mestres pela quantia de 130 mil reis. A obra que foi construída é a que ainda subsiste.

Henrique Duarte de Sousa Reis, que escreveu em meados do século XIX, deixou escrito que o Recolhimento se destinava, no seu tempo, "à clausura de senhoras e meninas que seus superiores, por conveniências públicas ou particulares, entendessem dever retirar do século e que nele (recolhimento) também se fazem depósitos judiciais de desposadas, quando é preciso..."

Duas filhas do pintor João Glama viveram no recolhimento desde 1841. Uma delas, Efigénia Miquelina Glama, morreu com 92 anos de idade, nos Carvalhos, onde se havia deslocado com a devida licença do bispo que era quem superintendia na administração da instituição.

Mas os tempos hoje são outros. E os objectivos da Obra são diferentes. Com a mudança dos tempos houve uma adaptação a novas realidades. No antigo Recolhimento do Ferro funciona hoje o Centro Social da Sé Catedral, uma modelar instituição de Solidariedade Social que presta relevantes serviços à comunidade da zona.

A Capela de Nossa Senhora do Ferro, à entrada da Rua Escura, era de origem muito antiga. Na frontaria ostentava uma data - 1681 - que podia corresponder ao ano de alguma remodelação porque devia ser de fundação anterior. Antes da fundação do Colégio dos Meninos Órfãos de Nossa Senhora da Graça. Na Cordoaria, era num edifício perto da capela (o Recolhimento) que funcionava a "Casa dos Meninos Órfãos". Esta mesma casa serviu também de residência aos coreiros, isto é, "moços que cantavam no coro da Sé" e que ajudavam às missas e faziam outros serviços naquele templo. A padroeira da capela chamava-se Se-nhora do Ferro, por causa de um ferro que atravessava toda a porta do templo e que, diz uma lenda, foi ali mandado colocar devido a um privilégio que fora concedido por um dos nossos primeiros reis à imagem padroeira do templo. Quem tivesse sido o rei que concedeu tal privilégio, ninguém sabe. Mas sabe-se qual era o privilégio. Consistia no seguinte: os condenados a morrerem na forca, ao passarem por ali, se conseguissem lançar a mão ao dito ferro, já não seriam executados. É sabido que os condenados tinham forçosamente que passar diante da capela. Naqueles recuados tempos, a prisão ficava exactamente na Rua de S. Sebastião, em frente ao edifício onde funcionava a Câmara, erradamente chamado de casa dos Vinte e Quatro. E os enforcamentos faziam-se em Mija Velhas (Bonfim), onde estava a forca. Não consta que algum condenado tenha evitado a morte na forca por beneficiar do privilégio.

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