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Saída de Ferreira Leite era "inevitável"

Saída de Ferreira Leite era "inevitável"

A saída de Ferreira Leite do cargo de director nacional adjunto da Polícia Judiciária, responsável pela Direcção Central de Combate ao Banditismo (DCCB), depois de uma entrevista dada no final da semana passada ao semanário Independente, era vista por muitos como "inevitável". O substituto do coordenador superior também já foi encontrado - será o magistrado Agostinho Torres - e o anúncio oficial deverá ser feito hoje.

Falta apenas escolher quem será o futuro número dois da DCCB, o que só deverá acontecer depois do Conselho Superior de Magistratura aceitar a indicação do juiz. Mesmo assim, é provável que a escolha recaía sobre Vítor Alexandre, o coordenador superior que estava no Funchal e que sempre manifestou o desejo de desempenhar tal cargo.

A mudança num dos departamentos considerados vitais para a PJ não parece ter provocado grande surpresa. Desde a primeira hora que Ferreira Leite não fazia parte do grupo mais restrito em que Santos Cabral depositava inteira confiança. Além disso, os factos de as competências do departamento terem sido substancialmente reduzidas e o trabalho apresentado não ter grande visibilidade pública também provocaram algum desgaste na relação de Ferreira Leite com a Direcção.

O facto do ex-responsável pela DCCB também ter apresentado recentemente um documento a Santos Cabral, onde dava conta da necessidade de mudar o enfoque de intervenção naquela área - que deveria ser mais virada para o combate ao terrorismo - também terá provocado alguns atritos com a Direcção que definiu outras prioridades.

A verdade é que a entrevistafoi mal recebida pela Direcção, que, no entanto, a autorizara. Nesse trabalho jornalistico, Ferreira Leite dava conta de que a PJ investigava um argelino, com ligações ao terrorismo, suspeito de envolvimento no atentado de Madrid, a 11 de Março. Ferreira Leite dizia ainda que estariam a perseguir uma organização fundamentalista denominado El-Nahda, formada no final dos anos 60 na Tunísia e acusada de ter provocado vários atentados terroristas. Na mesma entrevista, o responsável da PJ dava ainda conta de que o pedido de paradeiro havia sido feito por políciaseuropeias e era o caso mais "completo e concreto" em investigação. Para a Direcção, a entrevista terá sido a gota de água. Santos Cabral disse a Ferreira Leite que lhe retirava a confiança, tanto mais que a divulgação dos elementos poderiam comprometer a investigação.

Hoje, Santos Cabral deverá então anunciar o substituto. O desembargador Agostinho Torres é de Setúbal, mas é juiz na Relação de Coimbra. Segundo o JN apurou, nunca assumiu qualquer cargo fora da magistratura. Tânia Laranjo