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Uma escola que marcou a vida intelectual do Porto

Uma escola que marcou a vida intelectual do Porto

Eu gosto da Rua do Pinheiro. É uma das poucas artérias da cidade cuja fisionomia pouco se alterou ao longo dos anos. Começa, digamos assim, junto à antiga "estrada que vem de Guimarães para a Porta do Olival" ( a actual Rua dos Mártires da Liberdade) e desemboca num pequeno largo que é uma espécie de miradouro arcaico daqueles sítios. Pois foi por aquelas desafogadas bandas, entre quintas, chãos sem contenda, hortas, olivais, prazos vazios e arroios secos, nos chamados campos do Pinheiro ou da Pena de Arca, que, por 1725, um tal João António Monteiro de Azevedo mandou construir a sua casa e capela da invocação de Nossa Senhora da Conceição. Foi nessa casa, cabeça de uma enorme propriedade então denominada Quinta do Pinheiro, que, desde os finais do século XIX e praticamente até aos nossos dias, funcionou uma das mais prestigiadas instituições de ensino particular que houve no Porto - a Escola Académica, de que muitos dos leitores destas crónicas ainda estarão lembrados. Aliás foi um desses fiéis leitores que teve a amabilidade de me enviar uma das fotos que ilustra esta crónica (a maior).

A Escola Académica resultou da fusão de três outros estabelecimentos de ensino particular da época: o Instituto Minerva, o Instituto de S. Domingos e o Colégio de S. Lázaro. O fundador da Escola chamava-se Manuel Francisco da Silva. Ainda era estudante quando, em 1880, abriu, exactamente na antiga Rua da Sovela, uma sala de estudos. Dois anos depois, comprava o Instituto Minerva e nascia a Escola Académica, que teve a sua primeira sede na Rua dos Mártires da Liberdade, onde leccionaram os mais conceituados mestres da época: João Arroio, Oliveira Alvarenga, Ventura Terra, Simas Machado, entre outros.

A transferência para a Quinta do Pinheiro surge ao findar do século XIX. É por essa altura, 1896, que ao fundador da Escola Académica se junta António Domingues dos Santos, até aí director do Colégio da Glória. Manuel Francisco da Silva morreu em 1911. Mas o espírito da Escola Académica que ele criara ficou e vingou. Por aquele estabelecimento de ensino, passaram algumas das mais influentes figuras da cultura portuense e nacional dos finais do século XIX, começos do seguinte: Justino de Montalvão, José Régio, António Nobre, Carlos Selvagem, Ricardo Severo, Joaquim Costa, Alexandre Braga (filho), Eduardo dos Santos Silva, Emídio de Oliveira, Cristiano de Carvalho, Mário Amador e Pinho, Rui Corte Real Meireles, José Aroso e muitos mais. Entre os antigos alunos da Académica, avultavam médicos, advogados, comerciantes, engenheiros. Muitos seguiram a vida política, a diplomacia e o professorado; outros notabilizaram-se nas letras e no jornalismo. A partir de certa altura, a Escola Académica passou a funcionar como uma secção do Colégio Almeida Garrett.

Não deixa de ser curiosa esta particularidade, como curiosa é, ainda, a circunstância de, num espaço relativamente reduzido em torno da actual Rua dos Mártires da Liberdade, terem florescido algumas das mais importantes referências culturais do Porto dos finais do século XIX, começos do seguinte: o Colégio Almeida Garrett, a Escola Académica, a Renascença Portuguesa e a Livraria Académica, fundada pelo senhor Guedes da Silva e hoje do livreiro Nuno Canavez. De todas aquelas instituições, já só esta subsiste, mantendo-se, no entanto, para além do estabelecimento onde se compram e vendem livros novos e usados, como um espaço aberto de tertúlias culturais onde se trocam ideias e se fala de livros e ponto de encontro de bibliófilos. Pela livraria passaram várias gerações de alunos e de mestres dos dois já desaparecidos estabelecimentos de ensino.

Mais uma nota curiosa sobre a Escola Académica: foi numa das suas dependências que, em 1885, Rocha Peixoto, Ricardo Severo, Fonseca Cardoso, José Júlio Gonçalves Coelho, Alexandre Braga (filho), Hamilton de Araújo, Guilherme Braga (filho), Augusto Nobre e Eduardo Arthayett fundaram o Grémio Literário "Oliveira Martins", que viria a ser o embrião da futura Sociedade Carlos Ribeiro, responsável pela edição da revista "Portugàlia". Trata-se de uma das mais prestigiadas revistas de cultura que se publicaram nos finais do século XIX e onde colaboraram os mais consagrados investigadores da época. A "Portugália" tem hoje um extraordinário valor bibliográfico e cultural e já só nos livreiros antiquários é possível encontrar uma colecção completa.

Ao tempo em que a Escola Académica se instalou na Quinta do Pinheiro, aqueles sítios eram ainda considerados como sendo a periferia da cidade. A ampla propriedade, situada "junto aos Carvalhos do Monte, prez da cidade", sofreu profundas alterações quando, em 1761, João de Almada e Melo deu início ao seu arrojado plano de urbanização, que previa a abertura das ruas do Almada e da Conceição, entre outras. Por esse tempo, da parte de fora dos muros defensivos da cidade, já havia a Praça Nova das Hortas, as ruas do Bonjardim e a do Pinheiro, que, por essa altura, se chamava Rua da Misericórdia, por ter sido aberta em terrenos que pertenciam a esta instituição. Como referimos na peça aqui ao lado, a casa onde veio a ser instalada a Escola Académica fora mandada construir por João António Monteiro de Azevedo, que também mandou fazer a capela cujo traço é atribuído a Nicolau Nasoni. A capela, da invocação de Nossa Senhora da Conceição, tem na sua fachada uma curiosa inscrição em latim que quer dizer mais ou menos isto: "...este lugar do Pinheiro desaparecerá; a Senhora da Conceição, porém, há-de atear chamas alterosas e estas darão água..." A frase deve estar incorrectamente escrita. O que se pretende dizer é que "a vida passará mas a devoção à Senhora da Conceição será aqui perene..."

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