grande_lisboa

As vicissitudes do Bocage

As vicissitudes do Bocage

Acidade de Setúbal vai ter de celebrar sozinha, sem a solidariedade material do Ministério da Cultura, os 200 anos da morte (e 240 do nascimento) de Manuel Maria Barbosa du Bocage. Isto porque foi recusado à autarquia o apoio que pedira ao abrigo do Programa Operacional da Cultura (POC).

À primeira vista, a notícia surpreende. É que a evocação do bicentenário da morte do poeta, embora da iniciativa da Câmara (CMS), não é algo cujo interesse se possa resumir ao universo da cidade, ou mesmo do concelho.

Bocage, que usou o pseudónimo de "Elmano Sadino", não é, apesar disso, uma mera figura da cultura local mas, seguramente, o maior poeta setetecentista português e, também, o mais notável sonetista luso, descontado Camões. Ocupa, portanto, por direito próprio, lugar distinto na história da nossa cultura. Logo, tudo o que lhe diga respeito tem a marca do interesse nacional.

No caso, ou não se entendeu assim, ou entendeu-se mas de pouco valeu. Contudo, a CMS não pedia mais de cem mil euros, que se propunha empregar numa realização substantiva, que ficaria para o futuro, e não em qualquer espécie de fugaz festejo.

Como esclareceu Carlos de Sousa, presidente da CMS, em declarações aos jornais, "este apoio destinava-se à recuperação, musealização e informatização da Casa do Bocage". Pretendia-se que o novo museu fosse um centro de documentação bocageana incontornável, ligado em rede a faculdades portuguesas e estrangeiras - um recurso valioso para a pesquisa de investigadores.

É claro que o projecto não morre aqui, vítima da decisão do Ministério. A Câmara vai continuar, introduzindo-lhe as alterações que tiverem de ser feitas para reduzir custos, e procurando outras fontes de financiamento. Mas é triste que as coisas sejam assim.

PUB

Espírito livre e inconformista, Bocage não terá tido uma vida muito feliz, apesar das viagens e dos dias da boémia lisboeta. Infortunado no amor, marinheiro sem glória, perseguido pela polícia e pela Inquisição, preso no Limoeiro e no Convento das Necessidades, muitas foram as vicissitudes que o poeta enfrentou, durante os seus efémeros 40 anos de vida.

Contudo, por aquilo que nos legou, merecia melhor tratamento, 200 anos após a sua morte. Em Setúbal, terra da sua naturalidade, dedicam-lhe este ano, o "Ano Bocage", 12 meses de comemorações em três vertentes popular, educativa e erudita. E vão fazer da casa onde nasceu um museu, mesmo sem a ajuda do POC.

A nível nacional, que eu saiba, não se faz nada. Nem se apoia quem faz. Em Setúbal, há quem diga que no Ministério se pensa que só há cultura acima do Tejo. A este propósito, ouve-se falar da insuficiência de anteriores apoios, como os atribuídos ao "Festróia" e ao Teatro de Animação de Setúbal, já este ano. Ou da triste história do Convento de Jesus, há 15 anos de portas fechadas.

Mas os setubalenses não têm razão. A Casa do Bocage e o bicentenário do poeta não foram nem pior nem melhor tratados que a casa onde viveu Almeida Garrett. Nós, por cá, somos assim tratamos todos por igual. Ou melhor, maltratamos.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG