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Equipa do S. João devolveu mãos amputadas a jovem

Equipa do S. João devolveu mãos amputadas a jovem

Álvaro Silva, Marisa Marques e Sérgio Silva lideraram a equipa que reimplantou as duas mãos de Pedro

Pedro já percebeu que o mindinho esquerdo não se vai salvar. Mas sorri. Tem fé que os restantes nove dedos das mãos sobrevivam. E lhe permitam viver sem precisar da ajuda de terceiros no imenso resto de vida que tem pela frente. Pedro tem 21 anos, perdeu ambas as mãos numa máquina de dobrar chapas na passada quarta-feira e espera agora a próxima semana para saber se as reimplantações a que foi sujeito no Hospital de S. João, no Porto, cabem nos 50% de casos em que a intervenção é um sucesso.

A intervenção é inédita em Portugal, por envolver ambos os membros, e ocupou duas equipas médicas ao longo de 18 horas. O sucesso que, bem dobradas as 72 horas desde a saída do bloco é possível augurar, deve-se muito ao pouco tempo que decorreu entre o acidente, ao fim da tarde de quarta-feira, em Amarante, e o início das reimplantações, menos de duas horas depois.

No meio do azar, valeu a Pedro o facto de ser dextro e de a mão direita ter ficado amputada horizontalmente pelo punho (amputação transcarpiana). E, portanto, com um prognóstico superior ao da mão esquerda, seccionada obliquamente (amputação transmetacarpiana). O facto de a esquerda ser a mais difícil de recuperar levou o ortopedista Sérgio Silva a começar pela estabilização óssea da mão direita, enquanto a equipa de cirurgiões plásticos (Marisa Marques e Enrique Sanz) procedia à referenciação dos vasos da mão esquerda. Um trabalho dificultado pelo tipo de corte que Pedro sofreu. Lento, levou à maceração dos tecidos obrigando a enxertos de veias, "o que piora o prognóstico", explicou Marisa Marques.

A intervenção, segundo os médicos, correu bem, apesar de se terem registado diversas paragens de circulação em ambas as mãos, devidas a tromboses ao nível das anastomoses (zonas em que foram ligados os vasos). E é justamente essa dificuldade - contrariada no resto dos membros amputados - que explica a falência do dedo mínimo esquerdo. Mas "Pedro está consciente disso" e percebe que, "levadas ao limite", as suas reimplantações não permitem novas tentativas. A solução passaria por refazer um dedo a partir de tecido de outra zona do corpo, o que atrasaria a recuperação da funcionalidade das mãos. E se a viabilidade das reimplantações só pode ser dada como certeza dentro de uma semana, o início da recuperação da funcionalidade das mãos precisa de um mês, com tratamento fisiátrico.

As equipas acreditam, contudo, no sucesso da operação. A taxa de viabilidade em macro-implantações é de 50% (percentagem que desce para a mão esquerda de Pedro). Tudo depende agora da resistência do jovem às infecções oportunistas em casos destes uma ferida aberta nas mãos (se fosse suturada de forma definitiva, a cicatriz poderia funcionar como garrote e impedir a circulação), que só poderão ser reconstruídas após a recuperação vital e que foram mutiladas por uma maquina industrial, conspurcada por natureza.

Depois de tudo isto, Pedro - que entrou no S. João consciente e conhecedor do que o esperava - deverá ficar "independente" no dia-a-dia. Para comer, beber, lavar-se, escrever...

Treze especialistas e nove enfermeiros debruçaram-se 18 horas em torno da sorte de Pedro, jovem ajudante de serralheiro da zona de Amarante. Novidade por ser bilateral, a reimplantação não é, contudo, desconhecida das equipas envolvidas. A média, segundo o cirurgião plástico Álvaro Silva, é de duas reimplantações anuais no S. João. O único estudo sobre o Serviço de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva recenseou 47 casos em 14 anos, com 55% de sucesso. Há dez anos, reimplantou ambas as pernas a um doente. A operação de Pedro, "sem tempos mortos", beneficiou da técnica de transporte dos membros amputados, conservados em frio durante a hora e meia que mediou entre o acidente e a intervenção. Pedro estava ontem bem disposto, saído de um período pós-operatório bem passado, parte dele na nova unidade de cuidados pós-anestésicos do Hospital S. João, criada para doentes requerendo cuidados especiais. Este caso era-o pelo simples facto de ter sido sujeito a uma intervenção de 18 horas. Resta agora contar com o trabalho psicológico para ajudar Pedro e a família a encarar um futuro diferente.