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A Festa dos Reis Magos na tradição dos portuenses

A Festa dos Reis Magos na tradição dos portuenses

Não serão muitos, mas ainda haverá portuenses que estarão lembrados de ter visto, de pé, a capela dos Três Reis Magos (ler caixa). Pouquíssimos serão já, porventura, aqueles que se recordarão dos festejos que ao redor da ermida ocorriam todos os anos pela Festa dos Reis.

O Cantar dos Reis constituiu uma das mais antigas tradições populares portuenses do ciclo natalício. Participavam nela diversos grupos (reiseiros) que se formavam com base nas profissões (as troupes dos caixeiros, dos limpadores de chaminés, dos feirantes, dos instrumentistas e dos doutores); em moradores (os grupos da Presa Velha, das Eirinhas, do Monte Cativo, do Perneta e dos Lameirenses); de colectividades (os conjuntos da Filarmónica da Sociedade Musical, do Ciríaco Cardoso e do Musical 9 de Julho); e até de estrangeiros (o bando dos galegos e a guerra dos chineses).

O Dia de Reis celebra-se a 6 de Janeiro. Os grupos invocavam os magos. No frio da noite percorriam as ruas da cidade cantando às portas das casas. Sempre de noite, porque "a estrela os guiou de noite..."

No Porto, a Festa dos Reis tinha tradições seculares. O romancista António Coelho Lousada, na sua obra "A Rua Escura", publicada nos finais do século XIX, mas que evoca cenas da vida quotidiana portuense do século XV , refere-se a ".... uma multidão que aguardava (junto ao chafariz da Sé) a passagem da folia que havia de sahir do Souto e d'hai dirigir-se pela Sé, dançando e tocando, até ao largo dos paços do concelho, para ahi sobre um tablado, executor uma pantomina e uma espécie de auto dos Reis, perante as authoridades e mais summidades da terra..."

A antiga tradição do Cantar dos Reis, no Porto, durou até ao século XX. Há notícias, por exemplo, de que em 1882, pelos Reis, "nas ruas da cidade arruavam zabumbas, ferrinhos e as gaitas de foles anazaladas, exclusivas dos carrejões galegos." Dez anos depois, os jornais anunciavam que ainda se "ouviam as bandas e tocatas a acompanhar os grupos que cantavam os Reis..."

Ao dobrar para o século XX, ainda havia no Porto festa na véspera dos Reis, como se pode concluir de mais esta notícia "...numerosos grupos de populares exibem-se em curiosas composições poético-musicais próprias da quadra dos Reis, destacando-se entre outros os grupos do Centro Católico de Operários, dos Empregados da Carris, dos Cozinheiros e dos Moradores da Rua da Piedade".

Em 1909 ainda houve grupos a cantar os Reis. Entre os que actuaram pelas ruas da cidade "agradaram sobretudo o Novo Grupo dos Capuchos, a Troupe dos Caixeiros, o Grupo dos Galegos, o Grupo dos Azuis, o Grupo da Presa Velha, o Grupo dos Estudantes e a Troupe Musical Primeiro de Dezembro..."

A tradição começou a esmorecer com a implantação da República. Até aí cantava-se "São chegados os três Reis / da parte do Oriente..." Depois os reis começaram a sair das estrofes. Cantavam-se as Janeiras. Mas não era para todos: "As Janeiras não se cantam / nem aos reis nem aos fidalgos..." Sinal dos tempos. E tudo acabou por cair mesmo no esquecimento.

Até que o engº Nuno Cardoso, no seu primeiro mandato como presidente da Câmara, reabilitou a velha tradição portuense. E a adesão popular que a iniciativa colheu, veio demonstrar que os portuenses gostaram de ver recuperada uma das mais antigas e apreciadas relíquias do bem recheado baú das nossas tão belas tradições populares. Mas o regozijo durou pouco tempo. Com a saída de Nuno Cardoso da autarquia a Festa dos Reis voltou a ser encerrada, agora no baú do esquecimento. O que se lamenta, porque se acabou com a mais notável manifestação folclórica do Natal que se realizava na nossa cidade - que tão carecida anda de se rever em manifestações deste género, susceptíveis de lhe despertarem de novo o brio bairrista que tão por baixo anda.

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