opiniao

A migração do trabalho

Aglobalização acelerou radicalmente os movimentos de capitais, mercadorias e pessoas. Mas provocou também um conjunto de tendências e contratendências que se encontrarão para produzir novos modelos de mobilidade internacional.

Desde o século XIX que a emigração serviu para que as pessoas procurassem as oportunidades onde elas estavam. E fizeram-no, se necessário atravessando o Mundo, como nas migrações transoceânicas.

A industrialização atingiu um ponto em que o investimento ganhou mais mobilidade do que as pessoas. E começámos a assistir, em certas condições, à chamada nova divisão internacional do trabalho, na qual certo tipo de produção industrial procurou as pessoas onde elas estavam, nomeadamente quando os custos de produção se tornavam, pela compressão salarial, inferiores aos custos de transportes de mercadorias. Assim floresceu, por exemplo, no início dos anos 60 do século XX, a indústria portuguesa de confecções, destinada aos mercados do Norte da Europa. E assim chegaram até nós actividades industriais intensas em força de trabalho, como a dos componentes automóveis.

A era das comunicações electrónicas está a favorecer novos tipos de movimento migratório, a que chamaria a migração dos postos de trabalho, em detrimento das migrações de trabalhadores. É o que se passa com o chamado "offshoring", que está a ser posto em marcha com particular intensidade nos sectores financeiros e das telecomunicações.

Neste processo, em vez de as pessoas migrarem para onde estão as fábricas, são produzidos os negócios ou consumidos os serviços, certas áreas de negócio deslocam-se, quase sub-repticiamente, para onde há força de trabalho disponível. Quando alguém pede uma informação sobre um número telefónico, em Lisboa, pode - e provavelmente não o sabe - ser atendida em Cabo Verde. Os clientes de uma agência de Manchester de um banco "inglês" podem obter conselho, sobre uma decisão de crédito hipotecário ou uma aplicação financeira, on-line, junto de um trabalhador que nunca saiu da Índia ou do Paquistão.

Em termos sociopolíticos, este processo fixa os trabalhadores ao seu solo pátrio, dá novas oportunidades aos seus países e contém a pressão da diversidade cultural e de acesso aos países para onde migrariam pessoas, até há pouco tempo, em busca desses postos de trabalho. É bastante funcional para o Mundo pós-11 de Setembro. Ergue novas barreiras às pessoas, mantendo um espaço desobstruído de circulação do capital.

Na era das comunicações, há cada vez mais postos de trabalho que nascem em locais desconhecidos do utilizador e remotos, cada vez mais trabalhadores que encontram o seu emprego num terminal de computador que os ligam à escala Mundo. Esses trabalhadores prestam serviços "britânicos" ou "americanos", com as condições de trabalho, a protecção social e as condições de vida dos seus países de residência. Há 30 anos, para fazer a mesma função, emigrariam e dariam um grande salto nas suas condições de vida. Agora, paradoxalmente, a extrema fluidez das comunicações fixa-os aos seus meios e às suas condições de origem.

Poderá estar a nascer uma nova idade para o trabalho, em muitos sectores de actividade, na qual o processo de produção de bens e prestação de serviços perde centralidade e visibilidade para o consumidor e na qual a parte da riqueza produzida de que o factor trabalho se apropria se contrai por fenómenos, aparentemente paradoxais, em que a globalização do capital induz a localização do trabalho.

Uma nova idade que, também por esta via, apela a uma nova e maior regulação internacional e a uma mobilização mais forte nesse sentido, por parte de uma sociedade civil mundial emergente, que se espera e deseja ver fortalecida.

Paulo Pedroso escreve no JN, semanalmente, às terças-feiras