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Artur Andrade 1913 2005

Artur Andrade 1913 2005

Em Junho, Artur Vieira de Andrade, reconhecido impulsionador da candidatura, em 1958, de Humberto Delgado à Presidência da República, cuja campanha viria a ter a sua maior manifestação no Porto, confessou, ao JN, ter perdido o optimismo. "A pior herança do fascismo é a ignorância. E o medo. Já ninguém acredita na democracia, a não ser quem vive à custa dela - e muitos desses suspiram por Salazar. Isto revolta".

Ontem, aos 92 anos, o homem que foi um dos maiores combatentes do regime salazarista perdeu também a vida, vítima de doença. Eram 15.10 horas. Estava internado no Hospital Universitário de Coimbra.

Arquitecto - maldito antes do 25 de Abril -, licenciado pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto, onde nasceu e viveu, deixa obra polvilhada pela cidade é dele o projecto do Cinema Batalha, de 1946; o antigo Café Rialto, transformado, entretanto, em agência bancária; a garagem da Fiat, à Rua Latino Coelho. E chegou a conceber um projecto para o Palácio de Cristal, que acabou preterido por motivos políticos.

À profissão adicionou sempre o empenho pela causa pública, que por oito vezes o conduziu à prisão. Da primeira vez, tinha, apenas, 23 anos. "Os murros e os pontapés que me deram na prisão não paravam", recordou, recentemente. Liderou inúmeras estruturas associativas e foi presidente da primeira Câmara democrática do Porto, a seguir ao 25 de Abril - uma das raras figuras a quem, nesse ano, a Esquerda não conseguiu questionar a credibilidade democrática.

Repetiu a experiência autárquica, na qual desempenhou funções como vereador do Urbanismo, entre 1979 e 1983. E foi ainda vice-presidente no mandato de Alfredo Coelho Magalhães.

Tendo partilhado com Miguel Veiga o entusiasmo pela fundação do PPD, ao qual aderiu em 1974, a pedido de Sá Carneiro, abandonaria o partido em solidariedade com velhos amigos, para regressar em 1979, novamente pela mão de Sá Carneiro.

Pai de Laura Rodrigues, presidente da Associação de Comerciantes do Porto, foi condecorado pelo general Ramalho Eanes, em 1985, com o grau de comendador da Ordem da Liberdade.

Tinha grande estima e apreço por Artur Andrade. Uma personalidade notável, que lutou contra o salazarismo, e que depois prestou serviços inestimáveis à liberdade e à democracia, sobretudo com o impulso que deu à candidatura de Humberto Delgado.Depois do 25 de Abril, foi meu companheiro e correligionário de partido. Andámos sempre próximos na implantação e divulgação do PPD. Lamento muito a sua morte.

Artur Andrade foi a pessoa que mais contribuiu para a candidatura de Humberto Delgado, em 1958. Foi ele que, à frente de uma comissão de independentes, lançou uma candidatura que veio a ser apoiada por toda a oposição. Homem de grande dinamismo, arquitecto de grande relevância no seu tempo. A sua morte representa uma perda que muito sinto. Curvo-me perante a memória deste grande democrata que agora desaparece."

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