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Explicação breve acerca das duas antigas ferrarias

Explicação breve acerca das duas antigas ferrarias

Sabe-se, porque há documentos que o atestam, que houve no Porto duas ferrarias, ou seja, dois locais diferentes onde funcionavam as oficinas dos ferreiros - a Ferraria de Baixo e a Ferraria de Cima.

A primeira estava localizada à beira-rio, na rua que hoje ostenta o nome de "O Comércio do Porto". A segunda tinha a sua sede na actual Rua dos Caldeireiros. Logicamente, uma ficava lá em baixo; a outra mais cá para cima. Ambas funcionaram, durante muito tempo, autónomas uma da outra.

Os ferreiros, como é geralmente sabido, tinham Nossa Senhora da Silva como padroeira das respectivas irmandades. No plural, exactamente, porque no princípio, isto é, pelos finais do século XVI, eram duas - como facilmente se deduz do que atrás fica dito. Funcionavam com receitas e despesas à parte. Cada uma tinha o seu Compromisso ou Estatutos - preciosos documentos que se guardam no cartório da Irmandade ainda existente na Rua dos Caldeireiros.

O Compromisso dos Ferreiros de Baixo, feito no Hospital de Santa Catarina, na Rua de S. Nicolau, é de 17 de Novembro de 1593; o dos Ferreiros de Cima foi redigido no Hospital de S. João Baptista, na antiga Rua do Souto (actual Rua dos Caldeireiros), a 22 de Agosto de 1599. Informa-se, como mera curiosidade, que enquanto o primeiro documento está escrito em papel, o segundo foi redigido em pergaminho.

Em 1671, o bispo D. Nicolau Monteiro mandou demolir a acanhada ermida de S. Nicolau, onde o prelado fora baptizado, e no seu lugar construiu a igreja que ainda hoje se conhece. Numa casa ali por perto funcionava o referido Hospital de Santa Catarina, que a irmandade de Nossa Senhora da Silva cedeu ao bispo, para "alargamento e reconstrução do novo templo", por troca com uma casa que D. Nicolau Monteiro havia comprado "no rossio de S. João Novo" e para onde o hospital foi transferido.

Em 1682, as duas confrarias foram obrigadas judicialmente a juntaram-se, para formarem uma só. A sentença, dimanada do Juízo da Correição do Cível e confirmada pelo Senado da Relação, ordenava a reformulação das confrarias e mandava que "se unissem os confrades delas, os da parte de baixo com os da parte de cima", e que ao serviço da Confraria que resultasse dessa fusão, "houvesse só um livro de receita e despesa, um só Compromisso, um só escrivão e um só Provedor…"

Dando cumprimento à sentença acima referida, os ferreiros trataram logo de redigir um novo Compromisso que substituiu os antigos.

Realizada a fusão a sede da nova Confraria de Nossa Senhora da Silva passou a ser na antiga Rua do Souto, actual Rua dos Caldeireiros. E na sequência dessas mudanças também houve alterações com os hospitais. Assim, o Hospital de Santa Catarina, que mudara da Rua de S. Nicolau, "junto à Reboleira", para o Largo de S. João Novo, foi transferido para a Rua de Trás, para um prédio que tinha comunicação com o edifício sede da Irmandade, na Rua do Souto (Caldeireiros) onde já funcionava o Hospital de S. João Baptista, ali instalado desde os finais do século XV, e o Hospital de Santiago, que no século XVII veio da Reboleira para a Rua dos Caldeireiros. Os ferreiros foram sempre grandes devotos de Nossa Senhora da Silva, de S. João Baptista e de S. Baldomero, cujas imagens figuram na capela da Irmandade com destaque, naturalmente, para a de Nossa Senhora da Silva.

O Hospital de Santiago, quando na Reboleira, funcionava, especialmente, como albergaria para apoio aos peregrinos e tinha como obrigação "dar camas boas e limpas em que se possam albergar nove desses peregrinos aos quais serão dadas rações de entrada e saída, e lume, água e sal quanto lhes fizer mister. E finando-se algum desses peregrinos seja enterrado com três missas de sobre altar, e com pano e cera…"

Foi o padre Augusto de Vasconcelos, na sua "Descriptione Lusitaniae", e o bispo D. Rodrigo da Cunha, no seu "Catálogo dos Bispos do Porto", que registaram a lenda da Senhora da Silva. Diz antiga tradição que andando-se, no século XII, em tempo de D. Mafalda, mulher de D. Afonso Henriques, a abrir os alicerces para a construção da Catedral, foi encontrada, entre uns silvados, uma imagem de pedra à qual foi dado o nome de Senhora da Silva. Foi tão grande a devoção que aquela rainha devotou à imagem que, quando morreu, D. Mafalda, conta Rodrigo da Cunha, deixou-lhe "todos os vestidos e louçaínhas que em seu guarda roupa se achassem e de que, ainda hoje (1623 é a data da edição do Catálogo) se conservam algumas no tesouro e mostram quanto menor era a vaidade daqueles que destes tempos, e de quão pouco se contentavam as rainhas portuguesas…" Na Catedral existe o altar de Nossa Senhora da Silva representada por uma grande imagem de pedra mas ninguém sabe se é a da tradição. Sob a invocação da Senhora da Silva funciona ainda na Rua dos Caldeireiros uma Irmandade que noutros tempos foi administrada exclusivamente por ferreiros, serralheiros e ofícios afins.

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